
Era uma missão difícil para o cineasta canadense Denis Villenueve levar “Duna” para os cinemas, o primeiro da série de livros escritos por Frank Herbert o qual ele é fã assumido, em pleno 2021. Afinal, a obra original, lançada em 1965, serviu de inspiração para tantos projetos da cultura pop, sendo “Star Wars” talvez o mais famoso. Mas o resultado é surpreendente pela experiência de assistir a adaptação ser tão encantadora quanto o material original, superando a ausência do fator novidade.
Na trama, o Duque Leto Atreides (Oscar Isaac) administra o planeta Arrakis, lugar de fonte da substância rara e disputada por todo o universo. Em disputa com a casa Harkonnen, o seu filho, Paul Atreides (Timothée Chalamet), um jovem que nasceu para ter um destino além de sua imaginação, parte numa missão para garantir o futuro de sua família e seu povo.
As tentativas anteriores de adaptar “Duna” não foram nada memoráveis. O longa de 1984, dirigido por David Lynch, é uma bagunça generalizada, tanto que o próprio realizador o relega pelas tantas intervenções que o projeto sofreu. Teve uma série de TV pelo canal SyFy que, apesar de considerada fiel aos livros, sofria pelas limitações orçamentárias. Este “Duna” (Dune, 2021) é uma típica superprodução de Hollywood – custou U$ 165 milhões -, feita para ser conferida no melhor cinema possível (sim, neste caso, é essencial), e o toque reflexivo do diretor se torna um diferencial para quem espera apenas mais uma guerra intergalática.
Os trabalhos de Villenueve são de narrativas contemplativas, com visual deslumbrante e ritmo mais cadenciado, algo que deu muito certo em “A Chegada”, (Arrival, 2016), em “Blade Runner 2049” (idem, 2017), e, de certa forma, se repete em “Duna”. Os 155 minutos contém vertentes de jornada de amadurecimento (a chamada “Coming of Age”) com um peso de tragédia anunciada e uma aventura que se torna constante a partir da primeira batalha, sem precisar apelar tanto para diálogos expositivos.
O tom pessimista se reflete na fotografia de Greig Fraser (“Rogue One: Uma História Star Wars”, 2016), captando sempre os incríveis cenários desérticos em planos abertos, com tons dessaturados, alterando as paletas de cores entre o amarelo, o vermelho e o verde de acordo com as circunstâncias.
A montagem com os sonhos do protagonista permitem não apenas inserir o espectador na mente perturbada do jovem, mas passear por acontecimentos posteriores do livro, com a liberdade para utilizar tais passagens dentro da linha temporal como reais ou não. Decisão esperta de Villenueve e dos roteiristas Eric Roth (“Forrest Gump, 1994) e John Spaihts (“Doutor Estranho”, 2016) para contarem com várias “cartas na manga”.
O design de produção e figurino, desde os olhos azuis brilhantes, os “helicópteros” que parecem libélulas (sempre com as devidas rimas visuais para justificar as escolhas) aos traços dos uniformes pretos de sobrevivência que se assemelham a Kevlar, é tudo muito interessante. A atenção é especial aos Freman, os nativos do deserto, de modo a aproximá-los da cultura árabe, algo tão essencial para crítica política ali inserida, ainda que este teor seja menos abordado.
Se os efeitos especiais soam quase irretocáveis ao exibir o visual dos temidos “vermes” que são mantidos por algum tempo como mistério, é eficaz o intuito de imprimir tamanho à ameaça, algo grandioso como todas as pretensões do projeto. A trilha sonora do sempre eficiente Hans Zimmer é primordial para segurar tal dimensão, com cantos líricos gritados durante boa parte da projeção, tambores com batidas tribais no meio da correria, funciona para todos comprarem a ideia de estarem diante de um épico.
As cenas de ação procuram sair do óbvio das batalhas corporais com armas brancas, inserindo elementos como soldados descendo em velocidade lenta e embates rápidos com escudos de proteção invisíveis, além das perseguições com veículos exóticos encobertos de areia. Não se trata do principal chamariz diante de um conjunto da obra tão macro, mas um ingrediente muito importante.
Com um elenco tão famoso em geral, é normal que não existam destaques individuais, fora a competência em pequenos detalhes naquele contexto. Até a aparente inexpressividade e olhar baixo de Timothée Chalamet se encaixam como uma luva no arquétipo que carrega o peso de ser visto como o “Escolhido”, é atormentado por visões premonitórias, sem precisar verbalizar que não sabe o que fazer com tamanha responsabilidade.
Rebecca Ferguson, como Lady Jessica, dá vida a uma mulher forte e cheia de mistérios que procura seguir os instintos mesmo num meio masculino em sua maioria. Ela certamente ainda vai ter muito mais a mostrar. Enquanto isso, Jason Momoa confere a Duncan um carisma que vai além de um soldado fisicamente forte, mas o amigo de confiança que tira sarro de Paul Atreides sem nenhuma maldade.
Certos nomes conferem identidade mesmo com pouco tempo de cena, casos de Oscar Isaac, que tenta trazer um pouco de humanidade mesmo sendo um pai/líder tão poderoso no meio daquele caos, e o braço direito vivido por Josh Brolin, um funcionário que cumpre suas funções sem deixar de expressar o descontentamento quase que de maneira constante. Stellan Skarsgärd, mesmo debaixo de maquiagem pesada como o Barão Harkkonen, mostra ambição e deboche o suficiente para termos repulsa a ele.
Outros surgem rapidamente, com a certeza de que tais personagens estão garantidos na inevitável continuação, principalmente Zendaya, que aparece em muitos frames de sonhos, mas só um pouco da sua real função na trama é mostrada. Javier Bardem tem ainda menos tempo em tela, mas o suficiente para trazer o seu diferencial. Dave Bautista, bom, por enquanto ele está relegado ao papel de um capanga.
Eis que temos uma produção incrível, porém, com a trama incompleta, visto que adapta menos da metade do primeiro livro. Os créditos iniciais já tratam de apresentar uma “Primeira parte”, algo que não havia sido divulgado previamente. Dependendo de resultados de bilheteria nos cinemas e lançamento simultâneo nos Estados Unidos na plataforma de streaming HBO Max para conferir a “Parte II”, o cenário não seria dos mais otimistas. Mas felizmente a continuação foi anunciada pela Warner Bros., com lançamento previsto para outubro de 2023.
Analisando apenas o longa-metragem lançado, apesar do final em aberto, a entrega é de um universo de encher os olhos, sob o comando de um diretor que tem pleno controle do que está fazendo. O que dói é saber que se trata apenas do início da brincadeira com o público.
Nota: 8,0