
Em certo momento de “Eternos” (Eternals, 2021), um cinegrafista grita que “precisa ter ação”, numa metalinguagem da diretora Chloé Zao sobre o próprio trabalho no comando de uma grande produção da Marvel Studios. O que ali é colocado como uma brincadeira, não deixa de ser a sensação de quem conhece o traço autoral da realizadora. O longa até se difere em ritmo dos mais de 25 filmes daquele universo ao longo da última década, mas o padrão do estúdio parece sempre frear as ambições para não perder o cunho comercial. O pouco de ousadia vista é bem vinda.
Na trama, originários dos primeiros seres a terem habitado a Terra, os Eternos fazem parte de uma raça modificada geneticamente pelos deuses espaciais conhecidos como Celestiais. Dotados de características como imortalidade e manipulação de energia cósmica, eles são frutos de experiências fracassadas de seus próprios criadores, que também foram responsáveis por gerar os Deviantes, seus principais inimigos.
A produção está entre as menores aprovações do MCU, tanto pela crítica como pelo público. Não surpreende. No momento em que Kevin Feige e companhia contrataram Chloé Zao, vencedora do Oscar de 2021 pelo belo “Nomadland”, certamente o desejo era de maior liberdade criativa diante da necessidade de se reinventar nesta “Fase 4”. A diretora chinesa prima por um cinema mais contemplativo, de reflexão sobre os seus personagens, algo que é visto ao longo das 2h36min de duração, a segunda maior atrás apenas de “Vingadores: Ultimato” (Avengers: Endgame, 2019).
A narrativa leva o tempo que julga necessário para apresentar a nova equipe (também pudera, são 10 desconhecidos até então!) e transmitir para quem assiste a sensação do peso da imortalidade quase como equivalente à frustração dos envolvidos por não poderem interferir no curso da humanidade, mesmo com poderes de deuses. Há questionamentos pertinentes como a importância que as guerras tiveram para o avanço da Medicina, dos erros serem essenciais para aprendizados. Induções de debates sobre o papel dos deuses, sobre a fé. Mas tudo apenas jogado no ar, sem aprofundamento.
Para isso, a cineasta utiliza dos cenários grandiosos (a maioria deles são reais), cores vivas e uma montagem eficiente que perpassa por diversos episódios históricos. Deve soar frustrante para quem espera logo por batalhas em que se sobressaem as magias, mas são momentos essenciais para a construção da personalidade de cada um nos dias atuais naquela trama não linear, ainda que tais idas e vindas sempre apareçam bem demarcadas com letreiros. São escolhas nem tão ousadas, mas que funcionam. Por exemplo: abrir com “Time”, do Pink Floyd, pode não ser criativo, mas se encaixa dentro da proposta.
Claramente o roteiro, escrito por oito mãos (além de Zao, assinam Patrick Burleigh, Ryan Firpo e Kaz Firpo), teve muitas intervenções chegando a decisões nem tão fáceis num projeto macro. Há um plot-twist que deve surpreender os acostumados à fórmula de novos heróis sendo apresentados para um propósito maior. Assim como outras de simplesmente tirar um certo personagem do clímax, mas que traz um embate particular – e egoísta! -, se mostrando bem mais realista dentro daquele contexto do que garantir mais cenas de ação estilosas.
Mesmo contando com tantas peças a serem trabalhadas, é possível dizer que Chloé consegue a difícil missão de desenvolver todos, pelo menos o mínimo para que criemos conexão com eles. Sem precisar apelar para discursos “de lacração” (que termo nojento!), temos o projeto mais inclusivo e favorável à diversidade, com beijo homoafetivo, personagens com deficiência e de todas as partes do mundo. Triste é ter que escrever em pleno 2021 o quão natural isso deveria ser, mas é bonita a ideia de que o “não tradicional” existe desde os primórdios do universo.
Porém, a necessidade de falar diretamente com o público que criou fidelidade e vem enriquecendo a Disney/Marvel cria amarras de maneira constante. Há discursos bem expositivos, daqueles que parecem menosprezar a própria audiência. Aquela citação a Peter Pan e repetição do possível sentimento da Duende (a competente Lia McHugh) para com Ikaris, é um exemplo. Assim como outras repetições sobre a fidelidade de certo personagem ao seu propósito original, por mais que tenham o intuito de torná-lo tridimensional a ponto de justificar suas ações.
As quebras de ritmo com humor acontecem, mas a diretora não parece tão à vontade em lidar com tal requisito. Kingo, vivido pelo muito eficiente Kumail Nanjiani, até agrada, mais pelo carisma e experiência do ator na área, porém, a repetição de situação envolvendo o seu amigo, vivido por Harish Patel, desgasta. Da mesma forma como os efeitos especiais não se destacam em relação ao que já foi produzido, mas neste caso, as falhas ficam mais evidentes pelas muitas informações produzidas desta maneira por necessidades óbvias. As cenas de ação também não fazem feio, cumprem a função de colocar os poderes de cada um em prática, mas nenhuma sequência chega a ser memorável.
O elenco é cheio de altos e baixos. Richard Madden (o Robb Stark de “Game of Thrones”), que traz uma gigante responsabilidade como Ikaris, é tão carismático quanto uma porta! Bem diferente do ótimo Barry Keoghan, intérprete do Druig, que tem menos tempo em cena, mas rende maior curiosidade sobre a sua saga e relação com Makkari (vivida por Lauren Ridloff, que é surda na vida real). Gemma Chen até se esforça como Sersi, ela tem potencial, mas ainda não demonstra o suficiente para segurar a carga de uma protagonista de um time desse porte.
Nome mais famoso do elenco, Angelina Jolie fica de escanteio durante parte da história, trazendo mais o peso da sua presença do que a dramaticidade em si. As poucas falas são debochadas, o sorriso e olhar são irônicos, convencendo como alguém que prefere a luta corporal e tem uma relação de confiança com Gilgamesh (o simpático Don Lee). Da mesma forma como Salma Hayek está lá por ser conhecida, trazendo o ar de sabedoria e bondade que dela é exigido. Propositalmente, quem rouba a cena é o comediante Bryan Tyree Henry, como Phastos, num papel bem mais humano do que muitos humanos que vemos atualmente.
Essa gangorra de impressões prevalece, sendo louvável por dar uma chance para a inovação, por mais que desagrade boa parte do público alvo. Fica a impressão de que poderia ir além do “núcleo Vingadores” se tratando de personagens oriundos das série B ou C da mídia original, os quadrinhos. Mas pelo menos uma ideia fora do convencional já foi colocada em prática.
Obs: há duas cenas pós-créditos, ambas essenciais para os próximos passos do MCU.
Nota: 7,5