
“Os Caça-Fantasmas” (Ghostbusters, 1984) não tinha nada de revolucionário, mas a mistura de humor com assombração, além do fato da equipe principal se assemelhar mais a profissionais “comuns” do que super heróis, tornou aquela obra um cult com sua base fiel de fãs. A continuação de 1989, que basicamente repetiu o que fora visto antes, já não foi tão bem aceita.
Eis que a tentativa de reboot de 2016, dirigida por Paul Feig, foi alvo de uma avalanche de ataques misóginos por trazer mulheres como protagonistas, algo que desviou o valor daquele longa (tinha seus defeitos, mas longe de ser um desastre). Acontece que foi criada uma espécie de mística em torno do tal “terceiro” filme que por anos foi especulado, versões de roteiros foram escritas, mas o projeto nunca saiu do papel principalmente pela relutância de Bill Murray em retornar ao papel do Dr. Peter Vankman.
Sendo assim, este novo “Ghostbusters – Mais Além” (Ghostbusters: Afterlife, 2021) segue o caminho seguro de apresentar uma nova geração para os jovens enquanto enche de referências para os fãs das antigas. Como uma “continuação direta” do original, evita correr riscos e se segura no fator nostalgia para conseguir aprovação.
Na trama, uma mãe se muda para uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos com seus filhos. Ao chegarem na nova casa, eles acabam descobrindo uma conexão com os Caça-Fantasmas, enquanto acontecimentos paranormais começam a acontecer.
A direção é de Jason Reitman (“Juno”, 2007; “Amor Sem Escalas”, 2009), que é filho de Ivan Reitman, diretor dos dois primeiros é que claramente teve muita influência criativa nesta sequência. É perceptível o carinho com o material original, de modo que a narrativa reapresenta cada objeto já conhecido, como o aparelho com sensor de fantasmas, os uniformes, o carro Ecto 1, as mochilas de prótons, tudo com extrema cautela e a certeza da contemplação por parte do espectador.
São detalhes que a própria história trata de satirizar através do desconhecimento dos fatos por parte das crianças, enquanto o roteiro do próprio Reitman e Gil Kenan (do fraco remake de “Poltergeist”, 2015) leva o tempo que julga necessário para apresentar os novos personagens num arco familiar básico. Com mais de duas horas de duração, demora um pouco para a trama engrenar, quando o contexto por trás do mistério que permeia a mãe solteira, a menina nerd que foge dos padrões sociais e o adolescente no auge dos hormônios não é segredo algum para quem assiste.
Por um lado, elementos contemporâneos são introduzidos, como podcasts sobre temas sobrenaturais (o estreante Logan Kim, que vive o menino conhecido como…Podcast…garante bons momentos cômicos). Por outro, um professor está lá como ferramenta narrativa para explicar o que aconteceu nos anos 80, o que puxa até vídeos de YouTube relembrando o time original. Por mais que referências sejam inseridas na linha narrativa atual, como a pergunta “Para quem você vai ligar?” (Who you gonna call?), a impressão é que o passado é a prioridade da produção.
Enquanto a história parece correr para transformar os novos personagens em “caçadores de fantasmas” após longa introdução, a intenção de fazer homenagem ao universo já estabelecido fica clara. Inclusive substituindo elementos do longa de 1984, como uma nova versão do Geleia, um fantasma perseguido mas de visual amigável, ou o plano do vilão principal, com a repetição daquele papel vivido por Rick Moranis, o que não deixa de ser uma escolha fácil (porém, acertada) pelo sempre simpático Paul Rudd.
Temos um cardápio de fan-services, dos mais discretos aos mais explícitos, com a reaparição de monstros que são “familiares”, inclusive, a sequência da loja de conveniências é tão divertida quanto absurda. E principalmente, a produção é um ode a Harold Ramis, intérprete de Egon Spangler, falecido em 2014. Trocadilhos à parte, seu espírito está presente do início ao fim, sendo essencial para todos os acontecimentos, com o devido respeito à sua personalidade estabelecida há quase 30 anos.
Os efeitos especiais são eficientes, parecendo um passo à frente do que fora visto no injustiçado longa de 2016. O fato da história se restringir a um cenário de uma típica cidade pequena, não mais Nova York, contribui para evitar erros. Já a trilha sonora de Rob Simonsen parece pouco criativa, trabalhando as surpresas e deslumbres diante de situações que não surpreendem. No fim das contas, o longa parece ter consciência de estar alimentando a expectativa para tocar o tema clássico, de Ray Parker Jr.
No elenco, o maior destaque é a jovem Mckenna Grace (“Eu, Tonya”, 2017), que demonstra carisma de sobra no papel principal, deixando esperança para que a nova geração tenha vida longa. Já Finn Wolfhard parece estar lá mais pela sua presença do que pela atuação, visto que seu currículo recente é de produções que se alimentam da nostalgia, casos da série “Stranger Things” e a nova versão de “It – A Coisa” (2017, 2019).
A mãe, vivida pela ótima Carrie Coon (da série “The Leftovers”), cumpre bem o papel de trazer maturidade a um elenco de pouca experiência, enquanto o já citado Paul Rudd confere não apenas leveza, mas auto paródia diante da sua fama de cara legal. Por outro lado, é de lamentar que a personagem de Celeste O’Connor (do divertido “Freaky”, 2020), pensada para ter protagonismo, pareça tão deslocada.
“Ghostbusters – Mais Além” segue uma estrutura de “Sessão da Tarde” oitentista, com um clímax que deve garantir até justas lágrimas dos fãs da franquia. É honesto. Vai direto no coração. Mas fica a dúvida se há interesse suficiente para a continuidade com os novos nomes, por mais que dicas para tal sejam sugeridas.
Nota: 7,0