Crítica: “Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa” é um enorme fan-service que respeita o legado do herói

Atenção: crítica com spoilers

Quando o desejo maior de uma massa é atendido, geralmente a sensação é positiva, ainda que alguns fatores pelo caminho não tenham sido tão agradáveis. Isso, de certa forma, é o que acontece com “Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa” (Spiderman: No Way Home, 2021), uma produção que mobilizou expectativas e teorias na internet como há tempos não acontecia. É cheio de conveniências para, no fim das contas, atingir o objetivo de satisfazer os desejos dos fãs, mas que funciona pela maneira respeitosa como o processo é conduzido.

Na trama, Peter Parker (Tom Holland) precisa lidar com as consequências de seu alter ego como Homem-Aranha ter sido revelado. Pondo em risco seus entes mais queridos, ele pede ao Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch) para que todos esqueçam sua verdadeira identidade. Entretanto, o feitiço não sai como planejado e a situação torna-se ainda mais perigosa quando vilões de outros universos acabam indo para o seu mundo.

Desde o início do acordo de compartilhamento do personagem entre a Sony e a Marvel/Disney, firmado em 2015, um dos maiores incômodos por parte do fandom era a fuga da caracterização clássica no “Marvel Cinematic Universe” (MCU). Seus dois longas solos (“Homem-Aranha: De Volta Para Casa”, 2017; e “Homem-Aranha: Longe de Casa”, 2019) seguiam um padrão estabelecido que já ultrapassa 26 filmes.

Dificuldades financeiras, morte do Tio Ben, necessidade de se virar sozinho deram vez a um adolescente que da noite para o dia foi apadrinhado pelo bilionário Tony Stark/Homem de Ferro. Trata-se de uma releitura que se assegurava na novidade do herói num contexto de sucesso garantido e, principalmente, no carisma de Tom Holland no papel principal.

Para o terceiro longa que prometia o fim de um ciclo, claramente a intenção dos realizadores era reparar a sensação de vazio que pairava no público que guarda os filmes estrelados por Tobey Maguire na memória afetiva, mas sem perder a identidade do que a nova equipe de produção construiu, encontrando um equilíbrio. Tanto que retornam o diretor Jon Watts e a dupla de roteiristas Chris McKenna e Erik Sommers, nomes sem maiores traços autorais e de fácil controle do estúdio.

Todos os elementos da tal “Fórmula Marvel” estão presentes, como piadas constantes, cenas de ação forçadas para figuras conhecidas lutarem entre si, inserções de personagens para provocar acontecimentos na trama do jeito que convém os autores. No caso deste, mais do que nunca, visto que a história começa exatamente do ponto em que “Longe de Casa” terminou e, para Peter evitar que seus amigos não entrem na faculdade que tanto desejam, apela para que o Doutor Estranho realize uma magia que coloca em risco a ordem no universo. E o antigo Mago Supremo faz apenas para atender ao desejo de um rapaz incapaz de lidar com os próprios problemas!

Questionamentos à parte da inteligência de um personagem sábio e arrogante como Stephen Strange (Cumberbatch segue ótimo como de costume), além das decisões duvidosas do próprio Peter Parker de comprar briga para salvar vilões que acabou de conhecer (está na essência do personagem, mas, calma lá…), é claro que tudo não passa de uma grande desculpa para os mundos das outras produções do Homem-Aranha finalmente se cruzarem.

“Sem Volta Para Casa” é todo feito para arrancar aplausos dos espectadores em momentos chaves, que acontecem aos montes. E consegue, pois a maioria das referências soam naturais dentro daquele fiapo de história. A impressão é que McKenna e Sommers têm total consciência da falta de seriedade do próprio roteiro, a ponto de expor as conveniências nas falas (“Como assim você não tentou antes falar com eles?!”), como traz situações que beiram o absurdo que parecem saídas direto da mídia original, as histórias em quadrinhos, como o time de antagonistas dentro de um apartamento.

Assim, a narrativa decorre num ritmo acelerado – e ágil – mesmo com a duração de 2h28m, surgindo no decorrer frases e alusões a situações já vistas em outros longas que vão fazer surgir aquele sorriso de canto de rosto em quem tem acompanhado uma longa trajetória. Tudo o que se propõe a oferecer, vai direto ao ponto, sem enrolações.

É agradável conferir o retorno de atores de altíssimo nível conferindo performances à altura de seus nomes, casos de Willem Dafoe (fantástico!) e Alfred Molina, mesmo dividindo a atenção com inúmeros outros elementos. No caso de Jamie Foxx, ele tem a chance de reparar erros do passado, visto que o seu Electro surge com visual mais ameaçador do que o visto no irregular “O Espetacular Homem-Aranha 2 – A Ameaça de Electro” (2014). Thomas Haden Church e Rhys Ifans acabam ofuscados por emprestaram apenas as suas vozes.

O tão especulado encontro entre os Aranhas de Tom Holland, Tobey Maguire e Andrew Garfield é o ponto alto, principalmente porque acontece não como resolução “Deus Ex-Machina”, mas parte essencial para o desenvolvimento da trama e a evolução do arco dramático da versão interpretada por Holland, que desta vez precisa mostrar bem mais do seu potencial como ator do que nos anteriores.

E o que mais impressiona é a excelente química apresentada pelo trio, captando vertentes que tornaram marcantes suas respectivas versões. Os diálogos entre eles, cheios de metalinguagens quanto à versão de Andrew ser a menos badalada, piadas sobre a coluna de Tobey, citações a vilões enfrentados, além de responder algumas perguntas sobre os rumos que tomaram após seus filmes, seguem o perfil do roteiro de total descompromisso que, aqui, simplesmente funciona.

Aos 46 anos, Maguire traz novamente a doçura daquele Peter introvertido, desta vez como uma espécie de voz da experiência que auxilia nas motivações dos demais. O talentoso Garfield, por sua vez, é o que parece mais estar se divertindo em cena, imprimindo timing cômico e carisma, ganhando com justiça um novo espaço para cativar o público, visto que seus dois longas foram tão criticados e ele simplesmente não teve a chance de continuar a sua contribuição para o personagem.

É lamentável que um material tão interessante esteja nas mãos de um diretor apenas protocolar como Jon Watts. Sim, ele entrega cenas eficientes como o plano do pouso dos três Homens-Aranhas, do abraço de despedida e da salvação da MJ (vivida por Zendaya) pelo Peter de Andrew Garfield, que enfim, tem a sua redenção. Mas são momentos que funcionam mais pelo histórico do personagem do que pela condução do cineasta.

As sequências de ação no clímax são funcionais, mas não marcantes. A opção por focar em embates individuais em sua maioria tira a oportunidade de conferirmos algo com potencial para ser épico. Pode até não incomodar, mas ao lembrar da precisão em detalhes que Sam Raimi tinha (os voos de teia, a cena da sala de cirurgia envolvendo o Dr. Octopus e a sequência emblemática do trem…) e até dos lampejos de talento de Marc Webb (a morte de Gwen Stacy), fica a sensação de que poderia ser ainda melhor.

Pegando como exemplo o recente “Star Wars: Episódio IX – A Ascensão Skywalker” (2019), que basicamente tentou desconstruir o que havia sido feito anteriormente para agradar os fãs radicais a partir de fóruns do “Reddit”, “Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa” sabe “jogar para a torcida” com a consciência de cada passo dado e respeitando o legado do herói nos cinemas. É um enorme fan-service cujos defeitos visíveis acabam ficando em escala menor do que as qualidades. É para o “Amigão da Vizinhança” o que “Vingadores: Ultimato” (2019) foi para o principal time de heróis da Marvel.

Obs: há duas cenas pós-créditos.

Nota: 8,5

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