Crítica: Novo “Pânico” é uma homenagem e desapego ao universo criado por Wes Craven

É impressionante como fazem quase 26 anos que “Pânico” (Scream, 1996), dirigido pelo genial Wes Craven, foi lançado como uma produção de terror que, ao mesmo tempo em que era cheio de metalinguagens e sátiras ao gênero slasher (os filmes de serial killers mascarados…), não se assumia como satírico. Foi criativo o suficiente para se tornar um novo clássico, tanto que as sequências, todas comandadas pelo mesmo cineasta, desdobraram de maneira eficiente – e se levando cada vez menos à sério – os acontecimentos do primeiro longa, sem tentar uma nova reinvenção.

Onze anos depois do bom “Pânico 4” (Scream 4, 2010), que já era um remake debochado do “original”, a franquia retorna pela primeira vez sem o seu realizador, falecido em 2015. Felizmente, o novo “Pânico” (Scream, 2022) segue com a pegada que consagrou a saga, honrando tudo o que foi construído por Craven e também se atualiza em relação à tendência nostálgica de produções contemporâneas.

Na trama, 25 anos após uma série de assassinatos brutais chocar a tranquila Woodsboro, um novo assassino se apropria da máscara de Ghostface e começa a perseguir um grupo de adolescentes para trazer à tona segredos do passado mortal da cidade (sinopse genérica ao extremo, obviamente)!.

A direção ficou a cargo de Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillertt, do divertidíssimo “Casamento Sangrento” (Ready or Not, 2019), dupla que mostra um notável respeito ao universo construído por Craven, mas sem perder a ousadia para se desapegar de certos elementos para deixar a sua relevância, se diferenciando de mais uma continuação genérica. Caça-níquel em cima de um título famoso? Obviamente. Mas os diretores parecem ter consciência de que a eterna auto paródia não se basta para sobrepor algum produto aproveitador que poderia vir a ser entregue.

O fato de não ser comandado pelo criador, inclusive, foi essencial para que a tradicional metalinguagem se reflita não apenas nos clichês do gênero, mas exaltando de maneira explícita a própria franquia “Pânico”. Para isso, os roteiristas Guy Busick (também de “Casamento Sangrento”) e James Vanderbilt (“Zodíaco”, 2007) reaproveita personagens escritos pelo roteirista original Kevin Williamson de maneira estratégica como coadjuvantes enquanto uma nova safra de jovens é apresentada, mantendo detalhes como o estilo atrapalhado do assassino Ghostface e rostos com a função de verbalizar cada referência e pretensão do próprio roteiro.

Assim, os diretores ficam bem à vontade para repetir situações como a abertura com famoso jogo via telefone fixo, brincadeiras com jump scares envolvendo a abertura de portas, descida a porão no meio de uma festa, até espelhamento de cena do longa de 1996. E claro que o fato de tais crimes de Woodsboro terem a própria franquia de filmes intitulada “Facada” (Stab) naquele universo facilita para que os realizadores fiquem constantemente citando, na verdade, “Pânico”.

Mas para não se acomodar na repetição, o efeito surpresa se mostra presente, seja para o bem ou para o mal. O trabalho com a expectativa é funcional, deixando de matar alguém quando se espera que haverá morte e matando quando o espectador imagina que é quase impossível tal tragédia acontecer. A violência está bem presente em sequências de mortes ainda mais explícitas em plena luz do dia! E até mesmo a obviedade surge como um fator para mexer com tais sentimentos, sempre com a exposição proposital do roteiro, se mostrando uma peça fundamental da transição entre o velho e o novo.

É assumidamente um longa “de legado” que inicia um novo ciclo sem esquecer as figuras originais, afinal, elas são necessárias para ativar a empolgação dos fãs, assim como a última trilogia “Star Wars”, “Jurassic World” e o recente “Ghostbusters – Afterlife”, todos citados em cena. Ao mesmo tempo, se diverte com matanças vazias em tempos em que a opinião pública tenta emplacar o termo “pós-terror” com produções de teor mais reflexivo, casos de “O Babadook” (2014), “A Bruxa” (2016) e “Hereditário” (2018), obviamente, todos também referenciados no próprio roteiro. Tudo é escancarado pois a produção tem abertura para rir de tais tendências ao mesmo tempo em que as abraça.

Do elenco já conhecido do grande público, David Arquette volta a se destacar com aquela interpretação acima do tom da maneira intencional como Dewey, o homem de bom coração e pouco tato que tenta ser um grande protetor. Courtney Cox confere a Gail Weathers uma experiência e até cansaço que difere daquela repórter impetuosa e que usava do charme e status para conseguir os próprios objetivos. E ela mostra uma química ainda mais admirável com Neve Campbell, que desta vez, volta como Sidney Prescott mais como uma figura quase mística. Ela não é mais a adolescente inocente alvo do assassino, mas a mulher com vida feita que aparece no momento necessário para o desenrolar da história.

Entre as caras novas, Melissa Barrera até entrega o que é exigido, mas ainda não parece suficiente para segurar o bastão de nova protagonista. Diferente de Jenna Ortega, que vive a sua irmã, que consegue cativar pelo carisma. Nomes familiares de séries, como Jack Quaid (“The Boys”), convincente com seu ar de bom moço, e Dylan Minette (“13 Reasons Why”), que vive um jovem chamado Wes (a homenagem é bem óbvia!), segue o protocolo estabelecido. Interessante a atuação de Jasmin Savoy Brown, uma versão mais moderna do Randy, nerd que entende tudo de terror e mastiga para os outros o que está acontecendo ao redor.

“Pânico”, que não se chama “Pânico 5” como parte da zoeira, e não soberba, até para não mexer no que já está bem rotulado como produto de Wes Craven, provavelmente deixaria o criador orgulhoso. Existe um enorme carinho ao mundo em que os longas de terror conhecidos lá existem.

E agora há espaço para desenhar que o fandom para franquias que não se levam à sério pode ser muito tóxico! Até os “roteiristas da internet” que trilham o caminho em busca dos aplausos recebem a devida cutucada e isso já vale a satisfação, por mais irônico que seja. Ironia combina muito com “Pânico”!

Nota: 7,5

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