Crítica: “Ataque dos Cães” é um retorno triunfal de Jane Campion e uma entrega incrível de Benedict Cumberbatch

Foi um hiato de 11 anos desde “O Brilho de Uma Paixão” (Bright Star, 2009), último longa-metragem de Jane Campion, diretora do aclamado “O Piano” (The Piano, 1993). E é admirável o quanto a cineasta mostra segurança neste “Ataque dos Cães” (The Power of the Dog, 2021), lançado diretamente na plataforma de streaming Netflix, ficando a impressão de que por um longo tempo ela trabalhou de maneira precisa a sua próxima produção. Contemplativo, denso e, de certa forma, romântico, trata-se de uma obra que imprime suas mensagens em detalhes, sem apelar para a exposição.

A trama é situada em 1925. Os irmãos Phil (Benedict Cumberbatch) e George (Jesse Plemons) são fazendeiros ricos em Montana. No restaurante Red Mill, a caminho do mercado, eles conhecem a proprietária Rose (Kirsten Dunst). Começa uma batalha silenciosa e feroz pelo poder enquanto George tenta manter o relacionamento com a viúva e Phil busca seguir o estilo autoritário. O filho dela, Peter (Kodi Smith-McPhee), fica deslocado no meio das mudanças.

Jane Campion utiliza do livro homônimo de Thomas Savage para fazer uma ousada desconstrução de elementos que tornaram o gênero western (os “filmes de caubói”) tão icônicos, principalmente a figura masculina como o bravo, o dominante, o “macho alfa” que não perde o ar de superioridade mesmo desprovido de higiene. Peças como a cela de cavalo, o lenço a a corda são utilizadas de maneira estratégica e é bonita a forma como a cineasta filma de maneira cautelosa os planos envolvendo tais objetos, deixando seus significados implícitos.

Trata-se de uma uma história que, olhada de maneira geral, não conta com elementos mais complexos. E a condução de Campion faz questão de fazer do ritmo sem pressa uma vertente narrativa necessária durante os 128 minutos. A sensação é de demora, pouca ação, que não deve agradar quem espera por algo “convencional”, por mais que a diretora trabalhe de maneira cirúrgica as elipses (passagens do tempo), como o início do relacionamento entre George e Rose, e a ida e volta de Peter da faculdade.

A rotina é um peso que acompanha aqueles personagens, mesmo com um visual deslumbrante que os rodeia. A direção de fotografia de Ari Wegner (Lady MacBeth, 2016) é primorosa ao captar a imensidão daquele cenário desértico, o sol que desgasta aqueles que ali trabalham, contrastando com a fotografia escura é quase constante nos ambientes fechados. Uma metáfora para a repressão em que eles se colocam, mesmo existindo uma realidade bela e cheia de vida do lado de fora? Provavelmente. Inclusive, os citados cães na areia dependem da vontade e do ponto de vista de quem quiser enxergá-los.

A belíssima trilha sonora de Jonny Greenwood (guitarrista da banda Radiohead), intercalando guitarras e sintetizadores, contribui para o clima de melancolia que se atenua com o decorrer da projeção, por vezes se transformando em tensão.

A constante implicância de Phil com a submissão de Rose e a forma física do irmão George, geram sequências que refletem o incômodo, como a que ele atrapalha a música dela no piano com o seu banjo. Assim como a segurança como o jovem Peter caminha ouvindo inúmeras provocações preconceituosas, passagens que marcam o tom da narrativa. Parece não ter tanto impacto no momento, porém, tudo é essencial para o desenvolvimento.

As interpretações são essenciais para o resultado final ser tão bem sucedido. Benedict Cumberbatch entrega a melhor atuação da sua carreira. Ele encarna o estereótipo do homem extremamente tóxico, que sente a necessidade de ser nocivo para reafirmar a própria masculinidade, a ponto de se banhar de lama. Mas lá no fundo existe humanidade, e até sensibilidade, naquele cara excluído da alta sociedade. Sentimentos que ele demonstra seja sozinho ou quando explode de indignação/desespero.

Igualmente louvável está Kirsten Dunst que imprime em Rose uma mulher infeliz, mas que busca forças para seguir a vida. Até mesmo a relação com George, por mais forçada que pareça, soa como mais uma tentativa de recomeço, visto que ele demonstrou ser respeitoso com ela. Jesse Plemons, por sua vez, é o destaque menos vistoso do longa, mantendo o seu tradicional ar introvertido, mas de bom caráter. A química entre eles funciona, contribuído pelo fato deles serem um casal na vida real!

É até exagero chamar Kodi Smith-McPhee (“A Estrada”, 2009″; “X-Men: Apocalypse”, 2016) de revelação, mas este deve ser o papel que deve, enfim, consagrá-lo com merecidos prêmios. A fisionomia excêntrica e o corpo magro são essenciais para transmitir a estranheza que os outros sentem pela pessoa dele. Mas as feições pouco expressivas e seguras são o grande triunfo para alguém que só parece estar sempre vulnerável diante do julgamento alheio.

Com uma reviravolta no final que segue a tendência minuciosa da direção de Jane Campion, “Ataque dos Cães” é uma obra que sabe passear entre o belo e o sujo. É cheia de momentos que refletem a sociedade tóxica e cheia de ódio em que vivemos nos dias de hoje, que lidando com as próprias inseguranças e frustrações, adotam perfis repugnantes e machucam, e muito, aqueles que só querem ser felizes.

Tudo isso é feito magistralmente como um faroeste, aparentemente, inofensivo. E que significado aqueles sorrisos discretos têm ao final!

Nota: 9,0

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