
Em certo momento de “Matrix Resurrections” (2022), um personagem afirma que a Warner Bros. vai produzir um quarto episódio com ou sem os criadores originais. Obviamente se trata de uma ironia da cineasta Lana Wachowsky que, ciente da tendência de produções caça-níqueis em massa, resolveu levar para a tela toda a sua insatisfação e optou por zoar os que idolatram o longa original e esperam por uma nova revolução na cultura pop, a ponto de tentar destruir a própria criação. Criativa? Sim. Ousada? Muito. O que não impede que o produto final entregue seja…ruim!
Na trama, Neo (Keanu Reeves) vive uma vida aparentemente comum sob sua identidade original como Thomas A. Anderson em São Francisco, Califórnia. Ele também conhece uma mulher que parece ser Trinity (Carrie Anne-Moss), mas nenhum deles se reconhece.
O impacto que “Matrix” (1999) teve no mundo do cinema é inquestionável, tanto que 9 a cada 10 produções de sci-fi da época tentaram imitar o visual e os efeitos especiais. Mesmo as continuações, “Matrix Reloaded” (2003) e “Matrix Revolutions” (2003), dividem muito as opiniões, enquanto o original é quase unanimidade positiva. Em tempos em que os estúdios estão adorando reviver franquias (“Star Wars”, “Jurassic Park”, “Caça-Fantasmas”, entre outros), a ideia nunca agradou as diretoras Lana e Lily Wachowsky.
A intenção em “Ressurections”, já que seria feito de qualquer maneira, foi de tocar um remake/reboot do primeiro, porém, pegando pesado na autorreferência e metalinguagem. O fato de o roteiro apresentar Neo como o criador de uma série de games de sucesso é uma saída para eles citarem à vontade o próprio “Matrix”. Ao mesmo tempo, a brecha perfeita para despejar sarcasmos, como se Lana gritasse que ela e a irmã fizeram algo marcante e nunca vão entregar algo parecido, se rendendo às exigências por pura conveniência.
Assim, o que era estiloso, vira propositalmente patético, como a montagem que transmite o tédio de Anderson/Neo até com um pato de borracha na cabeça, óculos escuros quase carnavalescos e coreografias que só reproduzem movimentos antes vistos, mas pouco surge algo novo além da premissa da piada. Se a exposição nunca pareceu um problema dentro da franquia, aqui não economizam nos flashbacks, citações às técnicas de direção (como o tão copiado efeito “Bullet Time”), pretensões do próprio script e até exibição do longa de 99 diante dos personagens.
O que acontece é que o clima caótico Estúdio x Realizadores se reflete na prática, tanto que Lily sequer voltou para a direção, cabendo a Lana assumir a bronca sozinha. A ideia de não seguir uma condução de sequência de superprodução “tradicional” até foi liberada pelo estúdio, por maior que fosse o risco de não obter o resultado desejado para uma possível quinto filme, mas a sensação é de que a execução foi feita de maneira desleixada, o que não contribuiu o fato de grande parte das filmagens terem sido afetadas pela pandemia da Covid-19.
Fica claro que as sequências de ação tentam reproduzir de maneira apenas vaga situações anteriores. Mas se buscam ofender o espectador, a situação se torna mais delicada. A luta em conjunto contra os “expurgados” é de uma confusão visual sem tamanho, além de um rosto conhecido num plano isolado (claramente o ator gravou de maneira remota) falando coisas aleatórias. Quando vem o clímax, a diretora faz questão de filmar tudo à distância, deixando de lado os detalhes, utilizando apenas a ideia de aparar balas como fator decisivo para uma batalha desinteressante para quem assiste.
O intuito mais assertivo é de passar a imagem de um romance, uma história de amor, o que seria bem válido se não dependesse do efeito nostálgico, pois repete cenas do original em inúmeras ocasiões. Neo e Trinity têm uma química admirável e a direção sabe corrigir os rumos antes determinados de que um homem seria o salvador da humanidade. A crítica ao machismo na indústria se torna explícita e entrega um belo plano final (por mais que seja preciso relevar atores claramente pendurados num cabo), até tropeçar e metralhar as exposições no vexatório diálogo final.
O elenco, em teoria, seria um porto seguro, mas até Keanu Reeves parece num modo mais adormecido do que de costume. Ele nunca foi um ator expressivo, porém, sua aura de bom caráter sempre se refletiu de maneira positiva em seus trabalhos. Neste, o modo automático combinou tanto com a impotência do novo Neo que não agregou para o filme em si. Carrie-Anne Moss faz a sua parte, mas como o roteiro a mantém durante a maior parte da projeção intencionalmente robotizada, sobra pouca tempo para ela se soltar e a dupla, enfim, mostrar o valor.
Na proposta de substituir os atores em papeis consagrados se assim for preciso, Yahya Abdul-Mateen II cumpre um bem o papel de uma nova visão de Morpheus, mais extrovertido e de visual mais espalhafatoso, respeitando a versão de Laurence Fishburne. Já o talentoso Jonathan Groff faz o que pode para trazer a sua versão do Agente Smith, mas é bem difícil quando se tem o comparativo de Hugo Weaving e a direção faz questão de constantemente relembrar que eles são o mesmo personagem.
Entre os personagens “novos”, Neil Patrick Harris encarna a ideia de não se levar à sério, trazendo um vilão que condiz com a proposta de “chutar o balde” da seriedade da Wachowsky. De resto, Lana trouxe um monte de rostos conhecidos da eficiente série “Sense 8”, a qual ela e a irmã idealizaram, que pouco ou nada servem de maneira efetiva para a trama. São incluídos em repetições de situações que só os beneficiam artisticamente pela visibilidade.
Mais de 20 anos depois do lançamento do clássico que mudou uma visão da ficção e ação no cinema, “Matrix” volta com a intenção clara de respeitar o original e jogar no lixo qualquer possibilidade de tornar algo além. Pode funcionar para quem valoriza o “ame ou odeie” e pela sua atualização para os dias atuais, mas a arte do incomodar não soa suficiente neste caso.
Nota: 5,0