
Saber aproveitar a oportunidade. Isso foi o que a DC Comics fez ao usufruir da breve saída do diretor James Gunn (por motivos de tweets polêmicos do passado) da rival Marvel Studios, dando a ele carta branca para fazer o que bem quiser com personagens do segundo escalão da empresa. O resultado foi o ótimo “O Esquadrão Suicida” (The Suicide Squad, 2021) e, agora, a série “O Pacificador” (The Peacemaker, 2022), lançada pela HBO Max. Completamente à vontade, o cineasta destila suas marcas registradas e entrega algo empolgante.
Na trama, o ex-presidiário Pacificador (John Cena) é convocado por uma força tarefa improvisada do governo para tentar impedir uma ameaça que coloca em risco a vida de muitos. Além de seus deveres patrióticos, ele também precisará resolver sua relação com o pai.
O primeiro acerto de James Gunn (que dirige cinco dos oito episódios) é ditar o rumo da narrativa como algo que não se leva à sério, sem medo de soar cafona (a excelente abertura é um recado que não poderia ser mais direto). O estilo é o mesmo instituído em “O Esquadrão Suicida”, mas visto o histórico de séries voltadas para o público mais jovem da DC (as transmitidas pela CW, como “Arrow”, “The Flash”, “Legends of Tomorrow”), é clara a intenção de mostrar o deboche desde o primeiro episódio, que conta com diálogos que buscam risos pela rapidez e repetição, cena de sexo, pessoas explodindo e…performance musical de cueca branca.
O ridículo combina com o perfil do personagem que “ama a paz, não importa quantas pessoas tenha que matar para obtê-la”, de corpo malhado e usa um capacete esquisito. Outras figuras que surgem no caminho também abraçam a bizarrice (o Vigilante, o Judomaster…), enquanto aqueles que parecem ter o mínimo de consciência (a equipe formada por Clemson Murn, Emilia Harcourt e Leota Adebayo) são pintados como os “normais”.
A seleção musical, vertente de destaque nas obras do diretor, aqui ele desenterra canções de hard rock (umas famosas, outras nem tanto) que vão figurar nas playlists da boa parte dos espectadores, começando pelo tema “Do Ya Wanna Teste It” (Wig Wam), passando por “11th Street Kids” (Hanoi Rocks), “Monster” (Reckless Love), “By the Grace of God” (The Hellacopters), entre outras. O realizador sabe direcionar a produção para o público mais velho, sem descartar a nova geração que deve ter a curiosidade instigada por tal conteúdo.
E assim a produção tem tranquilidade para fugir de maiores cobranças, enquanto entrega sequências que vão provocar efeitos diversos. A pouca expectativa se torna um fator positivo. Por exemplo: quando o Pacificador e Vigilante atiram em objetos aleatórios, a diversão gratuita, enquanto o clímax conta com uma ótima sequência de matança com poucos cortes. Gunn sabe pausar para poses, utilizar slow-motions e enfileirar “heróis” para momentos decisivos, quando tais cenas seriam apenas cabíveis de risos no mundo real.
Mas mesmo tendo o humor como ferramenta principal, a trama é bem desenvolvida e cada personagem recebe o devido aprofundamento. A questão moral do protagonista, balançando entre vilão e anti-herói, funciona. A série assume uma postura clara contra o negacionismo, o ódio gratuito contra qualquer raça, gênero, etnia ou opção sexual. Ainda que existam vilões alienígenas para serem aniquilados, o que de certa forma diminui o antagonismo do Pacificador, o real perigo se concentra na figura do seu pai (vivido pelo competente Robert Patrick). O nazismo é um mau imperdoável! E jamais deve ser tratado diferente e o seriado escancara isso!
Christopher Smith é alguém com valores deturpados, consequência da criação completamente inconsequente. Ele não teve a oportunidade de conviver com o irmão e cresceu sob a tutela de um pai nazista de quem ele se incomoda com muitos tratamentos. A história não busca justificar suas ações, mas sim, colocá-lo como uma peça do sistema possível de ser moldada. Ele é ignorante, muito, sim! É o cara que tira sarro de alguém por motivos que ele mesmo o faz. E flashbacks são encaixados de maneira precisa, sem mastigar situações por inteiro, só o suficiente para captar o que aconteceu no seu passado.
E como é louvável a atuação de John Cena, um ex-astro da WWE que a direção conseguiu arrancar todo o carisma ali existente, para além de papéis óbvios como o irmão nunca então citado de Vin Diesel em “Velozes e Furiosos 9” (F9: The Fast Saga, 2020). Ele apresenta um ótimo timing cômico, de modo que as cenas de ação ficam em segundo plano. Suas expressões estão sempre em foco, fingindo não estar chorando sob uma desculpa esfarrapada de manter a estética ou se entregando ao drama num piano com uma versão de um clássico do Mötley Crue!
Freddie Stroma também ganha o público como Adrian Chase, o Vigilante, um mascarado de língua solta que é fácil de ser comparado com o Deadpool, mas o ator imprime o charme próprio como um nerd aparentemente inseguro, mas que tem muita autoconfiança e habilidade para combate. Assim como Danielle Brooks, que mostra a insegurança por ser filha de alguém influente, mas tem coragem para estar sempre se superando.
“O Pacificador” é escatológica, engraçada e envolvente. É James Gunn colocando em tela tudo o que ele sabe de melhor. A ideia de algo sombrio que perdura na personalidade e uma estética de rock das antigas é bastante encantadora.
Nota: 8,5