Crítica: “The Batman” é um criativo mergulho na agonizante Gotham City

É normal a expectativa com a chegada de um novo filme sobre o Batman que o tom adotado seja mais “sério” após o impacto positivo da trilogia dirigida por Christopher Nolan. E com este “Batman” (The Batman, 2022), temos a visão ousada – mas até certo ponto – do cineasta Matt Reeves. Ao mesmo tempo em que busca se distanciar do estilo de narrativa do Nolan e se apresenta como um thriller investigativo sombrio, não conta com detalhes minuciosos das obras que a inspiram, misturando com elementos do “cinema comercial”. O resultado é um mergulho num mundo poluído que honra o controverso heroísmo do personagem do título.

A trama segue o segundo ano de Bruce Wayne (Robert Pattinson) como Batman, causando medo nos criminosos da sombria cidade. Com apenas alguns aliados de confiança – Alfred Pennyworth (Andy Serkis) e o tenente James Gordon (Jeffrey Wright) – entre a rede corrupta de funcionários e figuras importantes, o vigilante solitário se estabelece como a única personificação da vingança. Suas investigações levam a uma série de maquinações sádicas em uma trilha de pistas enigmáticas estabelecida pelo vilão Charada (Paul Dano).

Matt Reeves, que havia comandado os ótimos “Planeta dos Macacos: O Confronto” (2014) e “Planeta dos Macacos: A Guerra” (2017), não esconde a influência nas obras dirigidas por David Fincher, principalmente “Se7en – Os Sete Crimes Capitais” (1995) e “Zodíaco” (2007), colocando a investigação em busca do criminoso que deixa pistas pelo caminho como o centro da história. Um tradicional jogo de gato e rato, que neste caso, tem uma figura popular em que os fãs anseiam por uma caracterização minimamente fiel e respeitosa à mídia original, os quadrinhos criados por Bob Kane. O que acontece com louvor.

Para quem curte buscar referências, o roteiro está cheio de passagens que remetem a “O Longo Dia das Bruxas”, “Ano Um”, “Terra de Ninguém” e até um pouco de “A Corte das Corujas”. Do ponto de vista cinematográfico, é inegável que a trilogia do Nolan tem uma relevância nas subtramas Batman/Gotham/traumas, e as obras de Martin Scorsese, principalmente “Taxi Driver” (1976), já se tornam óbvias, ainda que menos explícita do que o feito por Todd Phillips no recente “Coringa” (2019).

As adaptações para o cinema em maioria deram um destaque maior para os vilões, inclusive o espetacular “Batman: O Cavaleiro das Trevas” (2008), sempre lembrado pela icônica atuação do saudoso Heath Ledger como Coringa. Esta nova produção tem o Batman não apenas como o ponto de vista da trama em geral, mas como o protagonista das melhores cenas. O lado detetive é finalmente abordado como deveria, assim como a sua fragilidade emocional. Ele é a “aberração” vista pelos policiais, cujas pisadas das botas de couro provocam medo. O ser que busca por vingança sem medir as consequências do que tal sentimento pode provocar.

O novo longa se trata sobre o Homem-Morcego e a sua complicada relação com Gotham City, conhecida pela corrupção e criminalidade. Já tão abordada em outras versões, aqui Reeves e o ótimo diretor de fotografia Greg Fraser (de “Duna”, 2021) retratam a cidade através de paletas ainda mais escuras do que de costume, ressaltando a morbidez, a falta de vida. O que combina perfeitamente com o tom estabelecido pelo diretor desde a sequência inicial, em que o suspense para a aparição do vilão e do “herói” se aproxima de produções de terror, algo que pode ser visto até mesmo no ligar do motor na primeira visão do Batmóvel, que parece ter vida própria.

O talento do cineasta é conferido em cada plano. No escurecer do topo do prédio a cada encontro do Batman com Selina Kyle, na crueza da iluminação apenas pelas balas proferidas pelos capangas, da brutalidade que transparece em cotoveladas que podem levar à morte, nas revelações narrativas através das aparições do Charada em vídeos. A perseguição de carro, ainda que contenha muitos cortes, todos são muito precisos, entregando a adrenalina que um momento tão destrutivo poderia ter.

A luz vermelha de um sinalizador chamando por esperança já pode ser considerado um momento marcante. Mas também está cheio de momentos singelos, como quando o protagonista, literalmente, enxerga pelos olhos da Mulher-Gato, sem perder o rumo do mistério principal. Tem todo um fetiche/sensualidade naqueles seres de pouca crença na felicidade.

Por mais que tenha essa proposta de um noir feito “para adultos”, é inevitável que o roteiro de Peter Craig (“Atração Perigosa”, 2010), junto do próprio Reeves, necessite se adequar a exigências do mercado. O desenrolar da investigação prende o espectador apenas o suficiente para a inserção de cenas de ação pontuais e o desenvolvimento dos muitos personagens trabalhados. Sem tantos “plot-points” de fazer saltar da cadeira de surpresa.

E talvez por isso possa decepcionar a alguns pelo terceiro ato pouco inventivo e cheio de diálogos expositivos, ainda que condizente com as motivações daqueles envolvidos. Fica a sensação de muitos finais, porém, o monólogo seria bem mais condizente para o encerramento. Sem falar na necessidade de “aparições surpresas” para futuras continuações ou séries derivadas que acabam soando bastante deslocadas.

A duração de quase três horas certamente será um incômodo para muitos, ainda mais com o ritmo tão cadenciado e sem apelar para momentos de deslumbre do público alvo. Porém, não é um problema no sentido de imersão, principalmente, diante de tantos personagens que ganham o devido tempo de tela.

Escolha inicialmente contestada, Robert Pattinson mostra ser um dos melhores intérpretes de Batman até o momento, bem diferente dos demais. Mesmo sem tantas falas, os olhos perdidos e a cabeça baixa imprimem o constante deslocamento diante da sociedade. Assim como a versão jovem de Bruce Wayne parece pouco se importar em transmitir qualquer imagem. Ele é pálido, usa óculos escuros durante o dia, anda curvado e passa as responsabilidades sociais para o mordomo Alfred, vivido por Andy Serkis, que por sua vez, transmite segurança e sensibilidade, apesar do pouco tempo em cena.

Zöe Kravitz, por sua vez, traz todo o ar de sensualidade e mistério para esta versão “realista” da Mulher-Gato soar convincente. Ela tem personalidade, habilidade em combate e não necessita do homem para seguir o caminho próprio! Colin Farrell, irreconhecível debaixo de maquiagem impressionante como o Pinguim, rouba a cena sempre que aparece como um mafioso irônico e debochado. Ele ainda consegue ser um alívio cômico por mostrar, pontualmente, trejeitos que lhe rendem o apelido.

Paul Dano entrega o seu melhor como o Charada, aqui desenhado como uma espécie do próprio Zodíaco e Jigsaw, da série “Jogos Mortais”. Com ameaças em tons inseguros, ele transmite a ameaça de tempos reais em que pessoas podem fazer “justiça” a partir da violência. Pena que o vilão fique escanteado durante parte da projeção. Ele, certamente, merecia mais tempo e o longa ganharia com isso.

O sempre ótimo Jeffrey Wright acaba engessado pelo roteiro no papel de Jim Gordon, o principal parceiro de Batman nas investigações, mas ele tenta trazer o seu traço mais impaciente e objetivo, inclusive a ponto de colocar a própria segurança física em jogo em prol da justiça. John Turturro traz um carisma perigoso a Carmine Falcone, alguém que fala com naturalidade situações extremas (existe até uma insinuação de incesto), o que “justifica” o fato dele ser o dono informal de Gotham City.

A trilha sonora de Michael Giachinno é uma ferramenta fundamental, presente quase o tempo inteiro, trazendo tons épicos como os já vistos nos trailers, mas também muitos violinos que remetem melancolia. A sensação de tragédia é sempre transmitida pela música, que aqui e acolá ainda faz homenagem de maneira singela ao tema clássico de Danny Elfman, do filme de 1989. A canção “Something in the Way”, do Nirvana, se encaixa bem como uma representação de uma época, do pessimismo num cenário de grande visibilidade.

Na inevitável pergunta de “qual o melhor filme de Batman já feito?”, bom, “O Cavaleiro das Trevas” segue em primeiro com certa folga. O que não tira o mérito de “The Batman”, que concorre ao segundo lugar com muita propriedade. Foi o longa que melhor retratou o “Cruzado Encapuzado” em sua essência e a experiência de tormenta é transmitida.

Nota: 9,0

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