Crítica: “Top Gun: Maverick” é um dos blockbusters mais eficientes dos últimos anos

“Top Gun – Ases Indomáveis” (Top Gun, 1986) foi um marco de sua época, podendo ser considerado um cult/clássico por muitos apreciadores. Visto nos dias de hoje, há de reconhecer muita breguice e propaganda das forças armadas estadunidenses naquela romantização em ser um “piloto de caça”. Também por isso, uma continuação se tornou uma incógnita ao longo de anos e muitos roteiros foram engavetados. Mais um motivo pelo qual é tão admirável que, 36 anos depois, o astro Tom Cruise (afinal, ele quem manda na parada toda) tenha conseguido com “Top Gun: Maverick” (idem, 2022) não apenas realizar um blockbuster cheio de nostalgia que honra o original, mas também superá-lo em termos de experiência audiovisual.

Na trama, mais de três décadas se passaram, Pete “Maverick” Mitchell (Cruise) coleciona medalhas e reconhecimento pelos aviões abatidos. Sua carreira só não avançou porque algo não mudou: ele continua o mesmo piloto rebelde, que adora desafiar a morte. Convocado para ser instrutor de um grupo para uma missão da qual nenhum piloto vivo jamais participou, ele reencontra o tenente Bradley (Miles Teller), o filho de Goose, falecido amigo. É quando ele se dá conta de que enfrentará os fantasmas do passado e lutará contra seus medos mais profundos.

Agora comandado por Joseph Kosinski (que havia trabalhado com Cruise no bom “Oblivion”, 2012), existe um imenso respeito ao trabalho feito pelo saudoso Tony Scott em 1986. Toda a estrutura narrativa remete ao passado, começando pela mesma introdução com letreiros sobre os “Top Gun”, seguida da montagem permeada pela paleta vermelha com aviões em fase de preparo para lançamento, ao som da guitarra marcante da trilha original de Harold Faltermeyer, que corta para o rock “Danger Zone”, de Kenny Loggins, para empolgar de vez os saudosistas.

A ferramenta que instiga a memória nostálgica aparece de maneira nada discreta ao (re)apresentar o protagonista e sua jaqueta cheia de bordados, sua icônica moto, passando por planos bastante semelhantes, como aquele em que ele pilota o veículo de duas rodas com sorriso no rosto enquanto um avião de caça decola ao fundo. Até os créditos finais com imagens de cada ator com o nome do seu respectivo personagem se repetem. São detalhes que aproximam ainda mais os já familiarizados e, para os espectadores de primeira viagem, se não soarem estilosos, pelo menos não causam incômodo.

É, sim, um filme de legado, sem esquecer que se trata de uma continuação. O roteiro, que passou pelas mãos de Christopher McQuarrie (praticamente o atual braço direito de Cruise), Eric Warren Singer, Ehren Kruger, Justin Marks e Peter Craig – tantas intervenções geralmente é um péssimo sinal – mantém viva as memórias de muitos acontecimentos, mas de maneira atualizada, principalmente a importância de Goose, o falecido parceiro de Maverick, que ganha desdobramentos com seu filho.

A caracterização do “Rooster” com bigode e camiseta havaiana de Miles Teller, se assemelhando a Anthony Edwards, até a cena do piano com “Great Balls of Fire”, que resgata um flashback do longa anterior para traçar os paralelos visuais, é bem explícito. O ponto alto fica por conta da participação de Val Kilmer, diagnosticado com câncer na garganta e submetido a traqueotomia, que recebe a devida homenagem e estrela um dos momentos mais emocionantes.

O “fator tempo” não é ignorado, mesmo com a agora paródia da cena do vôlei sem camisa, desta vez futebol americano, mostrando um Tom Cruise quase sexagenário em melhor forma do que um monte de jovens. O arco do piloto habilidoso e atitudes quase kamikazes que reafirmam o seu talento ganha novas camadas, de modo a fazê-lo questionar o seu lugar no mundo. Não é nada inovador, mas funciona para aquele personagem que parece não ter limites e, mesmo evitando promoções ao longo da carreira para manter a paixão de voar, parece não ter propósitos na vida.

Para isso, Tom Cruise entrega mais uma atuação madura, mesmo que exibicionista como de costume. Jennifer Connelly, por sua vez, está lá apenas para ser o seu interesse romântico, uma chance dele ser feliz para além da carreira de piloto, um porto seguro, mas sua personagem não é tão desenvolvida, o que prejudica a química entre os personagens. Ela serve mais como ponte para que o mocinho confesse seus dramas mais profundos e protagonize cenas engraçadinhas.

Foi falado que Cruise é exibicionista? Sim, ele é. E louco. E perfeccionista. Vertentes cruciais para que esta sequência supere o anterior em grande valência num quesito: a ação. Se antes as cenas aéreas não geravam empolgação e pareciam artificiais justamente pelas limitações da época, agora, o ator/produtor exigiu que fosse utilizado o mínimo de efeitos especiais e o máximo de realidade. Os “efeitos práticos” impressionam, tornando essencial que o longa seja visto na melhor projeção de cinema.

Apesar da constante recusa do astro em utilizar dublês e das suas habilitações para voar em diferentes tipos de helicópteros e aviões, obviamente, ele não realizou as manobras num F-18 da Marinha, avaliado em cerca de U$ 70 milhões. Mas tudo é feito de maneira cirúrgica, com poucos cenários falsos, atores no banco do passageiro filmando a si mesmos, contando com detalhes que provocam a adrenalina, como os efeitos da “Força G”, voos quase ao nível do solo, arrancadas para o céu na “dobra do envelope”, mísseis sendo atirados às cegas. Tom, como não poderia perder a chance, pilota de verdade em alguns takes com a câmera voltada para si.

As batalhas no céu são dignas de aplausos. Simplesmente. Mas a emoção provocada não se restringe ao que é feito pelos pilotos profissionais que trabalharam na produção. A direção de Joseph Kosinski consegue instigar os nervos com detalhes minuciosos, como um painel de velocidade que aumenta e uma luz no radar que surge repentinamente. Para isso, os ótimos veteranos Ed Harris e Jon Hamm seguem o roteiro como os superiores ranzinzas que desaprovam as loucuras do protagonista, contextualizando bem o tom descompromissado e grandioso do projeto.

A nova geração de pilotos não traz maiores novidades, mas funciona dentro da proposta cheia de estereótipos. Miles Teller, pelo maior tempo de tela, se destaca como o piloto inseguro que fica à sombra do pai morto tragicamente. Glen Powell, que vive o implicante e candidato a antagonista “Hangman”, é aquele cara com carisma, charme e canastrice que se assemelha ao que foi o “Iceman” de Val Kilmer nos anos 80. Monica Barbaro, infelizmente, só supre a cota feminina como “Phoenix”, antes inexistente, assim como Danny Ramirez (“Fanboy”), Jay Ellis (“Payback”), Lewis Pullman (“Bob”), que só cumprem o protocolo.

A trilha sonora, além de manter a pegada da guitarra de Harold Faltermeyer que gruda como chiclete na memória, conta com a canção original “Hold My Hand”, de Lady Gaga. Está longe de ser marcante como a original “Take My Breathe Away”, da Berlin, até por ter um apelo menos erótico e mais emotivo, combinando com a proposta. Não é das melhores músicas da espetacular artista, mas é bonita o suficiente para figurar na temporada de premiações de 2023.

“Top Gun: Maverick” é bem direto no que se propõe a ser em relação a homenagem ao longa de 1986, mas tem personalidade própria ao entregar cenas que impressionam a ponto de tornar muitos contemporâneos do gênero ação apenas genéricos, elevando o padrão de comparação. Isso é muita coisa!

Nota: 9,0

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