Crítica: Se “Jurassic World: Domínio” queria ofender os fãs do clássico de 1993, conseguiu!

Chega a ser redundante dizer o quanto o primeiro “Jurassic Park” (idem, 1993) foi revolucionário para o cinema e tem lugar cativo no coração de milhões de espectadores (incluindo este que vos escreve). Porém, a premissa não funcionou tão bem como franquia, tanto que “O Mundo Perdido: Jurassic Park” (The Lost World: Jurassic Park, 1997) e “Jurassic Park III” (idem, 2001) deixaram a desejar. O “efeito novidade” era quase impossível de ser replicado.

Mas como Hollywood não desiste de lucrar em cima de sucessos de outrora, veio “Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros” (Jurassic World, 2015), que nada mais era do que um remake disfarçado do original, com ares de reboot/continuação, algo semelhante ao que foi feito em “Star Wars: O Despertar da Força” (Star Wars: Episode VII — The Force Awakens, 2015). A sequência, “Jurassic World: Reino Ameaçado” (Jurassic World: Fallen Kingdom, 2018) até tentou inovar ao trazer novos tons de filmes de terror, mas a sensação de desgaste era inevitável.

Faltava o terceiro capítulo da nova trilogia e nada poderia ser mais acertado do que trazer de volta os personagens que caíram no gosto do público em 1993, unindo diferentes gerações. Mas o que era prometido como um “desfecho épico”, “Jurassic World: Domínio” (Jurassic World: Dominion”, 2022) é o produto mais genérico entregue até então, cheio de decisões equivocadas que chegam a soar como ofensivas a quem um dia se encantou por aquele universo criado por Steven Spielberg.

Na trama, quatro anos após a destruição da Ilha Nublar, os dinossauros agora vivem – e caçam – ao lado de humanos em todo o mundo. Contudo, nem todos os répteis consegue viver em harmonia com a espécie humana. Enquanto isso, os ex-funcionários do “Jurassic World”, Claire (Bryce Dallas Howard) e Owen (Chris Pratt), se envolvem nessa problemática e buscam uma solução, contando com a ajuda dos cientistas experientes que retornam dos filmes antecessores.

O filme anterior, apesar de ser cheio de problemas, termina com um gancho bem interessante: a ideia da coexistência de humanos e dinossauros no mundo, não mais em um parque fechado. Para isso, a Universal Pictures trouxe de volta o diretor Colin Trevorrow, do primeiro “Jurassic World” (que apesar dos pesares, foi um enorme sucesso comercial, faturando U$ 1,67 bilhão nas bilheterias), após ser dispensado do “Star Wars” que acabou virando o doloroso “A Ascenção Skywalker” (2019) nas mãos de J.J. Abrams. Junto à ideia do retorno de rostos conhecidos do passado, o caminho parecia pavimentado para um longa-metragem, pelo menos, eficiente. Que engano!

O roteiro do próprio Trevorrow, Derek Connolly (que havia trabalhado nos outros “Jurassic World”) e Emily Carmichael (do fraquíssimo “Círculo de Fogo: A Revolta”, 2018) trata de já iniciar com um salto temporal e o máximo que temos sobre a convivência entre espécies de diferentes épocas é um documentário na introdução. O que temos depois é mais uma trama de empresa de bilionário ganancioso (vivido de maneira estereotipada por Campbell Scott) tentando tirar proveito dos bichos, uma nova reserva florestal onde eles passam a habitar e humanos em situação de perigo.

Se “Reino Ameaçado” já havia trazido caminhos bem duvidosos para o cânone, como a clonagem humana, “Domínio” parece brincar de inserir bizarrices em cima de um roteiro que já não parece ter propósito definido, como Velociraptors teleguiados por lasers e Owen Grady (vivido por Chris Pratt cheio de má vontade) parando qualquer animal gigante apenas espalmando a mão. Já os queridos Alan Grant (Sam Neill), Ellie Sattler (Laura Dern) e Ian Malcom (Jeff Goldblum), lamentavelmente, retornam para uma subtrama que investiga gafanhotos gigantes. Sim, gafanhotos gigantes!

Até existem induções a críticas ao terrorismo ambiental, mas tudo fica apenas nas entrelinhas. O que existe é um “esqueleto” para cenas de ação serem encaixadas de qualquer maneira. Tem perseguição com moto, perseguição a pé, Velociraptor pulando de um prédio para o outro, avião caindo e os tripulantes sobrevivendo sem sofrer um arranhão. Poderia funcionar em franquias como 007 ou “Velozes e Furiosos”, mas soa um desperdício em “Jurassic Park/World”, em que os próprios dinossauros parecem peças de pouca importância e, muito menos, ameaça. Sem falar que tais sequências são repletas de cortes em pequenos intervalos de tempo, prejudicando a imersão.

Há momentos curiosos, como a exploração de dinossauros no submundo do contrabando e apostas, mas são tão breves que só servem para puxar tais cenas de aventura genérica, além de inserir Kayla Watts (DeWanda Wise, um carisma mal aproveitado), artimanha só por ela saber pilotar avião, como se ali já não tivessem personagens em demasia! O mergulho de Claire Dearing (Bryce Dallas Howard no piloto automático) num pântano para escapar de um predador gigante até remete ao suspense sugestivo que Spielberg fez no início dos anos 90, mas termina sem resolução.

Se o casal vivido por Chris Pratt e Bryce Dallas Howard, além da menina clone vivida por Isabella Sermon (usada pelo roteiro como “McGuffin”, aquela peça sem função aparente que todos buscam e assim move a história) não conquistam o interesse de quem assiste, obviamente a aposta está no encontro com o trio original. Fica claro que a “cabeça dura” de Alan Grant, a paixão pelo trabalho de Ellie Sattler e a canastrice brilhante de Ian Malcom era o melhor material ali a ser explorado. Mas eles ficam ocupados com os gafanhotos! É triste ver Neill, Dern e Goldblum, atores que ainda demonstram carinho pelos seus personagens, num roteiro tão rasteiro.

Restam os momentos de nostalgia, como a trilha sonora de Michael Giacchino, que remete ao tema clássico de John Williams quando os heróis originais estão em cena. Existem muitas referências, como o flerte entre Alan e Ellie, o plano da perna do T-Rex na frente dos humanos, Ian Malcom mais uma vez utilizando fogo para distrair a ameaça. Mas muitas vezes são easter eggs que em nada acrescentam, sendo alguns forçados ao extremo, como a aparição da lata de barbeador que guardava embriões (que havia caído numa fossa há quase 30 anos). Tudo é muito desleixado.

Algumas vezes fica a impressão que a equipe criativa de “Jurassic World: Domínio” tem consciência da própria falta de noção e conduz a narrativa com um deboche proposital. Se foi o caso, não apaga o fato de ser uma mancha dolorida numa franquia que se arrastou por muito mais do que deveria e não merecia ser encerrada como piada.

Aquele deslumbre de ver dinossauros gigantes nos dias de hoje, se emocionar com a respiração no peito de um Triceratops, sentir medo com um olho de um Tiranossauro Rex na janela de um carro, não existe mais. E os realizadores esqueceram que aquela magia era essencial.

Nota: 3,0

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