Crítica: “O Menu” é uma boa degustação da desagradável sociedade da frescura!

É sempre renovador para o “apetite pela arte” quando conferimos alguma produção original nos cinemas em meio a tantas continuações, spin-offs, remakes e “enlatados” de grandes estúdios. Mas muitas vezes o tal diferente vem com aquele retrogosto decepcionante, com a impressão de que já experimentamos algo parecido antes. E felizmente não é bem o caso de “O Menu” (The Menu, 2022), que soa como um prato nem tão popular, que tem obtido razoável destaque em nichos específicos e culmina num sabor satisfatório durante o momento da degustação, valendo a indicação.

Na trama, Margot (Anya Taylor-Joy) é convidada por Tyler (Nicholas Hoult) para viver uma experiência inesquecível em um dos restaurantes mais conhecidos – e exclusivos – do mundo. A cozinha é liderada pelo famoso chef Slowik (Ralph Fiennes) e o estabelecimento fica localizado em uma ilha distante, na qual todos os seus ingredientes frescos são cultivados.

Logo nos minutos iniciais, quando os personagens visitam os locais onde os funcionários de tal restaurante luxuoso habitam, fica nítido o teor crítico do longa. A exploração junto a alienação de quem, literalmente, vive no ambiente de trabalho, praticamente não tem espaço para repouso, e ainda assim esboça satisfação e engole a ideia de “família”. Mas, se por um lado o suspense é construído de maneira gradual pelo diretor Mark Mylod, o tom de deboche é escancarado, a começar pelo perfil propositadamente estereotipado daqueles ricos que soam patéticos.

Não surpreende que Mylod – que apesar de ter entre filmes no currículo apenas a comédia romântica “Qual o Seu Número?” (2011) -, tenha na vasta carreira de produções para TV a direção em episódios da espetacular “Succession” (que não por coincidência também tem Adam McKay como produtor), que cutuca de maneira brilhante no controle exercido por multimilionários. O que é visto como “case de sucesso” para muitos que deslumbram o poder parece um amontoado de futilidades para quem preza minimamente pela racionalidade.

E visto que, de certa forma, se trata de um longa sobre culinária, é interessante a forma como o roteiro de Seth Reiss e Will Tracy utilizem da desconstrução de pratos refinados para destilar o mal existente naquela parcela da sociedade. Se trata de uma degustação para aqueles arquétipos que estão em cena (ator medíocre, críticos gastronômicos que adoram destruir reputações, assistentes de patrocinadores), mas para o espectador, fica a constante sensação de elefante no meio da sala, do desastre iminente.

Para isso, a direção de Mark Mylod trata de cadenciar o ritmo com a devida ironia através das descrições em texto de cada prato (alguns deles, bem, bizarros…), as palmas que ressoam como pancadas para um aviso de algum universo superior.

Sim, há surpresas que causam impacto nos “produtos” do inusitado cardápio. Mas na medida em que o planos dos envolvidos fica bem claro, a projeção se torna um horror tradicional, tendo as reviravoltas absurdas e fuga de bom senso com a realidade como essenciais para a apreciação da obra, com toques sem refino (a narrativa acerta ao chutar para longe essa vertente) de comédia.

E justamente por abraçar o tom satírico, a atuação de Ralph Fiennes como o chef maníaco não transparece ser pitoresca. É além do tom, quase como um Lord Voldemort numa cozinha, mas que acaba sendo condizente com a proposta extremista. Do outro lado, o ótimo Nicholas Hoult imprime bem o ar de ingenuidade que beira o ridículo, alguém deslumbrado, aceita absolutamente tudo e se acha dono da razão mesmo com absurdos diante do próprio nariz.

Num longa que se propõe a não definir um protagonista óbvio, Anya Taylor-Joy mostra força numa personagem com a responsabilidade de representar grande parte do público. Ela é quem não se encanta com qualquer coisa que aparece, que julga como insulto certos serviços apresentados. Se durante parte da narrativa ela fica na parte reativa, ela mostra o valor de quem sabe entrar na mente daqueles seres cheios de interesses.

Não se trata de uma proposta inovadora, principalmente em tempos em que a já citada série “Succession”, e também “The White Lotus” (ambas da HBO), são premiadas por fazerem sátiras da burguesia de maneiras diferentes. No ramo da gastronomia, a série “O Urso” (disponível no Brasil pela Star+), entregou algo fenomenal em 2022. “O Menu” cumpre o que se propõe no gênero suspense, ainda que não tenha sido o primeiro da fila nesses tempos de políticas extremistas. Mas ele soa como um belo Cheeseburger com fritas enquanto observamos o mundo pegar fogo!

Nota: 7,5

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