
Desconstruir temas possivelmente polêmicos através de gêneros cinematográficos não é bem uma novidade. Mas é fato que Luca Guadanino tem mostrado um talento admirável nesse quesito. Em “Me Chame Pelo Seu Nome” (Call Me By Your Name, 2017), um drama LGBT, entregou uma sensível obra sobre experiências e descobertas em cenários que fortalecem cada lembrança. Em “Suspiria: A Dança do Medo” (Suspiria, 2018), remake do terror de Dario Argento de 1977, usou da beleza da dança para simbolizar o contraponto da tortura ali existente, num ritmo bem cadenciado mesmo com teor sobrenatural.
Em sua nova produção, “Até os Ossos” (Bones At All, 2022), baseada no livro homônimo de Camille DeAngelis (ainda inédito no Brasil), é como se o diretor italiano misturasse suas ideias anteriores. Se flerta com o horror, é porque agora não há bruxas, e sim, canibais. E ao invés de dois homens de idades distintas desfrutando dos prazeres da vida, agora temos dois jovens buscando um lugar no mundo, mesmo com suas “peculiaridades”. E assim temos um dos longas mais sensíveis de 2022.
Na trama, quando Maren Yearly (Taylor Russell) passa a seguir o próprio rumo após o abandono dos pais, ela se junta a um rapaz marginalizado (Timothée Chalamet) e eles embarcam em uma odisseia de quase cinco mil quilômetros pelas estradas secundárias dos Estados Unidos.
A principal força deste projeto é tratar da necessidade de se alimentar de carne humana por um viés diferente do terror, ainda que contenha cenas bem violentas e gráficas. Mais uma vez a prioridade é a narrativa, o caminho que aqueles personagens trilham para lidar com o diferente.
Após um necessário choque inicial para introduzir a temática para o espectador, o diretor italiano trata de conduzir sua obra como uma mescla de filmes de estrada (ou “road movie”), com trama de amadurecimento (os chamados “coming of age”) e romance, sem perder o toque de suspense, a sensação de tragédia iminente que acompanha os instintos daquelas pessoas recém saídas da adolescência. Assuntos como distância familiar, perseguição, heranças genéticas vêm à tona, mas fugindo dos clichês.
Sem apelar para diálogos expositivos, o roteiro de David Kajganich (que também trabalhou no remake de “Suspiria”) trabalha o canibalismo como uma alegoria para a dificuldade em se encaixar em padrões, podendo ser comparada a distúrbios variados, dependência química, comportamentos que destoam da aprovação popular numa sociedade tão crítica e, sim, carregada de tabus que se transformam em culpa. Por quê não, seria um alerta à relevante causa vegana?!
Mesmo sem explicitar os julgamentos, o peso que Lee e Maren carregam é transmitido de maneira eficiente. Ambos sofreram perdas significativas ao longo da vida, algo crucial para a improvável união deles numa vida sem rotina. E a fotografia, a cargo de Arseni Khachaturan, continua sendo um fator deslumbrante das obras do cineasta. Com locações em diversas partes do cenário desértico e dessaturado dos Estados Unidos, sempre com os devidos letreiros de apresentação, a apreciação é necessária para a captação dos sentimentos que estão em cena.
Luca é um cineasta que sabe a importância de cada plano que coloca em sua obra ambientada nos anos 80, seja para rimas visuais como o encontro de testas do “casal” que estampa o pôster em momentos distintos, de destacar a resistência de um certo “souvenir” cheio de dor ou da simples memória que cada móvel ou objeto de uma casa tem para representar o mínimo de sossego, de “normalidade”.
Vale curtir um rock dos anos, com a ótima “Lick it Up”, do Kiss, que carrega um pouco da revolta e da sexualidade ali existente! Não à toa, a trilha-sonora do sempre eficiente Trent Reznor (fundador do Nine Inch Nails, vencedor do Oscar de Melhor Trilha-Sonora Original por “Soul”, 2020) funciona bastante na tarefa de imersão naquela melancolia crescente.
No papel principal, Taylor Russell se mostra uma grata revelação, visto que seus projetos anteriores, como “Escape Room” 1 e 2″ (2019, 2022), não mostraram tanto do que ela é capaz. Aqui, ela imprime a insegurança de uma garota que precisa lidar com as mudanças bruscas de uma vida nada fácil, cheia de dúvidas sobre a própria existência. Por outro lado, Timothée Chalamet mostra maior amadurecimento e até mais expressões do que o de costume no papel de um rapaz que adota a postura de rebelde, porém, tem um passado misterioso que nitidamente assombra o seu presente.
Coadjuvante de luxo, o veterano Mark Rylance rouba a cena sempre que aparece como uma figura excêntrica que, à primeira vista, soa como um apoio diante da falta de opções. Porém, o talento do ator trata de deixar explícita a estranheza e possível perigo ali existente. Vale a citação de Michael Stuhlbarg (que viveu o pai do personagem de Chalamet em “Me Chame Pelo Seu Nome”), numa breve participação que reforça que o mau sempre vai existir de uma maneira mais contundente, independente do contexto.
“Até os Ossos” é aquela obra que pode soar monótona e até sem sentido para quem procura algum entretenimento tradicional. Para quem conhece Luca Guadanino, temos mais um deslumbrante passeio cheio de encantos e incômodos. Ele sabe fazer sorrir. Mas ele também é sádico. E assim é a vida.
Nota: 9,0