Crítica: “Pinóquio”, de Guillermo del Toro, é uma obra incrível sobre a vida, a morte e a eternidade!

À primeira vista, pode não parecer animador o lançamento de uma nova versão de um clássico dos estúdios Disney em tempos exaustivos de remakes em live action. Se tratando de Pinóquio, que já teve um longa-metragem em 2022, lançado direto na plataforma de streaming Disney+ (e o filme dirigido por Robert Zemeckis é de uma falta de imaginação sofrível), a sensação pode ser ainda mais estranha.

Mas não duvidem do talento de Guillermo del Toro! O seu “Pinóquio” (Guillermo del Toro’s Pinocchio, 2022), lançado pela Netflix, mescla magia e morbidez, traços típicos do cineasta mexicano, trazendo personalidade ímpar. Não apenas se mantém fiel à essência do conto de 1883 do italiano Carlo Collodi, que rendeu a inesquecível animação de 1940, como apresenta novos elementos para reflexão que vão atingir além do público infantil.

A trama é situada em 1950, na Itália comandada pelo fascismo. O boneco Pinóquio (voz de Gregory Mann) ganha a vida quando o carpinteiro Gepeto (voz de David Bradley) talha a forma de um menino em madeira. Entre suas aventuras, ele encontra figuras como o trapaceiro Conde Volpe (voz de Christoph Waltz).

A obra se trata de um projeto tocado com muita cautela por del Toro (além do co-diretor estreante Mark Gustafson), visto o seu carinho com a obra original. Não à toa, foram mais de 10 anos de produção, levando em conta que o estilo de animação stop-motion, em que modelos de bonecos reais são utilizados para a criação dos movimentos, requer uma paciência extra. Imagina um dia intenso de trabalho para garantir menos de cinco segundos do longa! Pois é!

E o resultado, visualmente, é algo belo e melancólico ao mesmo tempo. Cada quadro é deslumbrante, com a pitada sombria tão característica. Para retratar a triste história da criança que já nasce rejeitada pela sociedade por ser…diferente…Pinóquio não tem uma aparência semelhante a de um menino de verdade, e sim, um boneco feito de galhos feito com rapidez e pouco cuidado diante de um momento de fragilidade de seu criador.

O roteiro do cineasta premiado por longas como “O Labirinto do Fauno” (2006) e “A Forma da Água” (2017), aqui acompanhado de Patrick McHale (da ótima série de animação “Hora da Aventura”), traz a mistura de fantasia infantil com o tom pessimista da literatura gótica (“Frankenstein de Mary Shelley”, “Drácula de Bram Stoker”, contos de Edgar Allan Poe, etc), utilizando da história clássica como pano de fundo para uma série de temas que são jogados para reflexão para o espectador.

São muitas as subtramas apresentadas, mas sem tanto aprofundamento, muito menos diálogos expositivos (sinal de respeito ao público que vai consumir a obra). Elementos do clássico de 1940 da Disney estão lá para não perder a identidade, como o nariz que cresce ao mentir e a baleia no clímax, mas tudo ganha novos significados. O cenário desenhado pelos criadores é fundamental para a apreciação.

Tem pano pra manga a ser absorvido sobre perdas, luto, a necessidade de substituir alguém que se foi. Essa sempre foi a motivação de Gepeto, mas aqui, seus traumas são desenvolvidos de maneira gráfica, chocante e até, realista. Há cutucadas no fanatismo religioso, como o momento em que Pinóquio questiona a adoração por uma imagem de Jesus Cristo numa cruz de madeira, quando ele também é de madeira e é visto justamente como um demônio pela população.

Um deslumbre sobre o “pós-vida” está lá, bem conduzido através de coelhos pretos (vozes de Tim Blake Nelson). Não se trata do Céu, do Inferno ou Purgatório. Apenas a visão do além pelo realizador. As críticas à guerra e ao fascismo (algo tão presente nos dias atuais, seja por “Trumps” ou “Bolsonaros” ao redor do mundo) estão presentes, com a figura de Benito Mussolini sendo claramente exposta e crianças sendo convocadas para a matança.

Também aborda o peso da imortalidade, algo que pode ser visto como forte para aqueles que visam a batalha, porém, pode ser um fardo gigante para quem fica aprisionado numa vida acompanhando todos que amam partirem, ainda que por causas naturais, afinal, assim é o ciclo da vida.

Porém, em meio a tanto aparente niilismo, Pinóquio está lá como a representação da inocência de uma criança que busca não apenas o amor do pai que o “construiu”, mas não enxerga maldade nas atrocidades de uma guerra em que todos os envolvidos só perdem (curioso o simbolismo de balas de tinta que podem ser à partir da sua visão, ofuscando o sangue). Ele só quer viver! E aos poucos os injustiçados são expostos de maneira orgânica, como o macaco Spazzatura (voz da sempre impecável Cate Blanchett).

Personagem sempre essencial por ser o narrador, o Grilo Falante (que aqui ganha a simpática voz de Ewan McGregor) segue como a “consciência” do protagonista. Porém, aqui ele aparece como um guia que também carece de atenção, de um porto seguro para conduzir os seus rumos, algo que surge de maneira inesperada na troca com aquele graveto com vida. Os personagens secundários ganham corpos inusitados e bem criativos, como a “Fada Azul”, que vira a assombrosa Duende de Madeira (voz de Tilda Swinton).

Com uma condução que tende para a tristeza permanente, Guillermo del Toro entrega a sua obra com maestria e até esperança. Os questionamentos são eternos num mundo permeado de negativismo. Mas uma frase sobre uma pinha é potente à ponto de arrancar aquela mistura de reações que termina com um digno suor nos olhos. Isso é arte!

Nota: 9,0

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