Crítica: “Aftersun” e um relato pessoal sobre a beleza das memórias

Nem sempre uma lembrança precisa ser grandiosa para ser marcante. Ainda que, naturalmente ou de forma inconsciente, ela seja alterada pela mente humana ao longo dos anos, o seu significado é o que mais importa, para o bem ou para o mal. Da mesma forma, um filme não necessita de grande orçamento ou artifícios técnicos para tocar os espectadores de maneira diferenciada. E traçando esse paralelo entre realidade e ficção, “Aftersun” (idem, 2022), longa semi autobiográfico de Charlotte Wells, distribuído pela A24, tem alma de sobra para perdurar na memória daqueles que captam a proposta da cineasta estreante.

Na trama, no final da década de 1990, Sophie (Frankie Corio) e seu pai Calum (Paul Mescal) passam as férias em um clube na costa turca. Vinte anos depois, as memórias dela ganham um novo significado enquanto tenta reconciliar o pai que conheceu com o homem que não conhecia.

E aqui este que vos escreve pede licença para compartilhar alguns relatos pessoais. Tenho orgulho de ter tatuado os nomes dos meus avós. Descrevo com mais aprofundamento sobre a relação com meu avô Pedro, que por muitos anos foi, além de uma figura paterna, o meu melhor amigo. Inclusive, um dos maiores responsáveis por despertar em mim a paixão pela sétima arte. Ele, grande fã de ficção científica, me apresentou obras como “Star Wars”, “E.T – O Extraterrestre”, entre tantas fitas alugadas em VHS e idas ao cinema após buscar no colégio no seu saudoso Fusca branco, antes pertencente à amada vovó Ângela, quem o câncer levou deste plano em 1993.

O vovô Pedro não era um ser humano perfeito. Tinha uma sinceridade que soava ofensiva para muitos. Proferia comentários que hoje seriam taxados como politicamente incorretos. Partiu em 2003 após anos sofrendo com a doença de Alzheimer. Vê-lo indo embora aos poucos, tanto a sua mente como a sua personalidade, foi uma dor imensurável. Em meio a pedras ao longo do caminho, a lembrança que permanece é daquele homem com dedicação ímpar com aqueles que amava (e que dedicação!). Dos flashes das viagens à casa de praia, com rodas de samba, alguns drinks para os adultos, brincadeiras de presentes escondidos para nós, crianças, e até um galo mal encarado que fazia um monte de gente correr de medo.

Dito isso, “Aftersun” é um longa extremamente simples, na mesma proporção em que é profundo. À primeira vista, pouco acontece ao longo dos 96 minutos de duração e a narrativa lenta, cheia de momentos contemplativos e imagens desfocadas podem não agradar muita gente. Acontece que Charlotte Wells sabe manipular o espectador com sutileza, sem precisar apelar para exposições exageradas, enquanto conta a história que quer contar, misturando relatos reais e fictícios. Assim como a vida, a obra pode ser lembrada de diferentes maneiras, ou apenas pequenos trechos dela, mantendo vivo o elemento principal: o coração.

Lidamos com uma viagem de um jovem pai com sua filha para um país nem tão turístico, a Turquia, num hotel aparentemente nem tão caro (e por coincidência, o quarto deles é o número 501, o mesmo do apartamento em que vivi por quase três décadas da minha vida). A partir daí, elementos de produções “coming of age” (ou “história de amadurecimento”) são introduzidos, como a primeira atração da garota pelo sexo oposto. Da mesma forma conferimos o empenho do pai de desfrutar de bons momentos com a filha. Dilemas de pessoas com idades marcadas por indefinições, ela tem 11 anos, assim como ele, na casa dos 30, fases tão difíceis de serem rotuladas, com “responsabilidades” distintas.

Mas fica claro que não se trata de um passeio totalmente feliz. Paira a sensação de que existe algo estranho no ar. No papel de Calum, o ator Paul Mescal (da série “Normal People”), numa fantástica e nada fácil atuação merecidamente recompensada com uma indicação ao Oscar, imprime um esforço para demonstrar paz, priorizando a felicidade da filha acima de tudo. A diretora espalha dicas sutis, como diálogos sobre a sua dificuldade financeira, até sequências que causam maior estranhamento, como ao pegar uma bituca de cigarro acesa do chão da rua, caminhar para o mar em plena madrugada, além de muitas displicências com Sophie no hotel e as mutilações no próprio corpo que ele diz não lembrar as origens.

Já Frankie Corio, uma grata revelação de 2022, capta a inocência de uma garota que procura se divertir, mas não consegue esconder o deslocamento ao interagir com jovens com idade um pouco mais avançada. No fundo, ela quer aproveitar cada momento com o pai. É admirável a sua performance desconcertante ao cantar num karaokê sozinha, sem o apoio do único que o acompanhava. Ao mesmo tempo, é comovente ver a sua alegria ao mobilizar um monte de desconhecidos para parabenizar a vida daquele que ela tanto ama, que por sua vez, não sabe ao certo como reagir ao gesto. Ainda assim, Calum está lá disposto a conversar sobre temas que são tabus para a idade, a ensinar um pouco das técnicas de relaxamento que tem aprendido com o intuito de cuidar da própria saúde mental.

E um grande triunfo da direção de Charlotte Wells é conduzir a trama sem se apegar a realidades absolutas. Situações são repetidas a partir de diferentes pontos de vistas e se alteram no decorrer da narrativa. Como uma memória antiga que é moldada e revivida com mais afinco no futuro, assim como Sophie faz na fase adulta. São admiráveis os exercícios da cineasta para expor tais distorções, colocando muitas vezes os personagens fora de foco (principalmente Calum quando narra um episódio traumático da sua infância), seja na água, no espelho e principalmente na câmera de vídeo, equipamento que transpõe os confusos olhos daquela dupla para os espectadores, além da revelação gradual de uma foto de Polaroid.

Em anos tão agonizantes, Wells até insinua que tragédias podem acontecer no meio do trajeto, causando incômodo diante de algo bonito que vinha sendo construído. E acertadamente ela não desenha seus intuitos. Cada um que entenda como for mais conveniente! E em tempos em que diretores jogam músicas famosas a torto e a direito, ela consegue a proeza de presentear quem assiste com um clássico do Queen e David Bowie numa precisão que, provavelmente, nunca será ouvido da mesma forma por quem se encantou por “Aftersun”.

A arte movimenta sentimentos. E voltando para o meu relato pessoal neste texto, o longa fez despertar uma infinidade de memórias. Sem idealismo, pois assim é a nossa curta vida. A saudade é real, dolorosa e eterna. E estimula a ideia de criar novas lembranças, pois isso é tudo de mais belo e valioso que temos!

Nota: 10

Deixe um comentário