
É notório o declínio do nível das produções da Marvel Studios após o clímax grandioso de “Vingadores: Ultimato” (Avengers: Endgame, 2019). A “Fase 4” apresentou filmes e séries protocolares que pouco acrescentaram em termos de futuro para aquele universo, com defeitos nítidos principalmente nos efeitos especiais (com queixas pertinentes que se tornaram públicas de profissionais da área) e roteiro. Soma-se a dificuldade de produzir em tempos da pandemia da Covid-19. Com exceção do mega fan-service “Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa” (Spiderman: No Way Home, 2021), não houve nenhuma unanimidade entre a audiência.
O longa que abre a “Fase 5”, “Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania” (Ant-Man and the Wasp: Quantumania, 2023) não apresenta indícios de evolução, soando talvez como o maior símbolo dessa “crise” (termo bem relativo, pois as bilheterias seguem indo bem, obrigado), recheado de problemas que vão incomodar aqueles que não se encaixam no nicho de fãs que defendem com afinco o entretenimento passageiro dos filmes de super heróis.
Na trama, quando Cassie (Kathryn Newton), filha de Scott Lang (Paul Rudd), desenvolve um dispositivo que permite a comunicação com o reino quântico, o experimento termina em desastre e eles se transportam para o mundo desconhecido. Juntamente com Hope van Dyne (Evangeline Lilly), Hank Pym (Michael Douglas) e Janet van Dyne (Michelle Pfeiffer), o quarteto precisa lidar com uma civilização oculta enquanto buscam um caminho de volta.
O próprio conceito do Homem-Formiga é difícil de ser levado à sério em meio a heróis superpoderosos. Porém, os dois primeiros longas solo que o personagem ganhou, ainda que não figurem entre os favoritos do público alvo, têm seus méritos por captarem essa premissa de, sem trocadilhos, não tentarem ser algo maior do que podiam. Se apoiavam no carisma fora da curva de Paul Rudd, numa pegada de “filmes de assalto” e boas tiradas cômicas com coadjuvantes eficientes (o tagarela Luis, vivido por Michael Peña, é fantástico). Com exceção de Rudd, que segue levando nas costas a simpatia da audiência, todo o resto parece ter sido abandonado neste terceiro episódio.
Uma das decisões mais controversas foi a escolha pelo roteirista Jeff Loveness, estreante em longas-metragens, que optou por transformar “Quantumania” numa aventura cósmica magalomaníaca que bebe direto da fonte de “Star Wars” e do humor exagerado da animação “Ricky e Morty” (que ele mesmo escreveu alguns episódios). Exceto pelo estabelecimento do novo vilão e de uma ou outra piada que consegue arrancar risos discretos do espectador, pouco funciona.
Diferente do drama do “monstro-geleia” Veb (voz de David Dastmalchian, que curiosamente estava nos anteriores como outro personagem), o roteiro é repleto de buracos. Se Janet tivesse falado sobre a sua passagem de três décadas (!) pelo reino quântico, pouco sobraria para um filme. Transbordam diálogos frouxos e repetições de citações a outros heróis daquele universo e a autoparódia sobre o “tamanho” do protagonista para garantir a satisfação dos fãs. As forças são medidas de acordo com a conveniência do roteirista, a ponto de alguém capaz de dizimar universos levar a pior no soco contra um humano.
O diretor Peyton Reed, que havia comandado os outros longas do Homem-Formiga, mostra pouca criatividade no comando de cenas em que os atores atuam diante do fundo verde, com cenários totalmente digitais. Não seria necessariamente um problema se tantas produções do gênero já não fizessem algo do tipo há anos e, neste caso, a artificialidade chega a ser gritante. As batalhas que invocam “revolução” com muitos elementos num mesmo plano parecem confusões visuais e muitas sequências de ação se limitam a atirar raios e a encolher/esticar elementos.
Se o CGI deixa a desejar em muitos aspectos, nada se compara com o que fizeram com Modok, que de tão grotesco, fica difícil não encará-lo como um meme pronto. O vilão dos quadrinhos é um monstro esquisito, feio e trágico. No live-action, a execução, apesar do visual fiel, ficou estranho a ponto de atingir o ridículo (e muitos vão defender que foi proposital como parte da “proposta cômica”).
A inserção de criaturas de visual exótico, como um brócolis com olhos ou “apartamentos vivos” pouco surtem efeito, enquanto novos personagens como o telepata Quaz (o bom William Jackson Harper) e a guerreira Jentorra (Katy O’Brian) têm pouca ou nenhuma utilidade na trama. Chegando com a missão de se juntar à nova geração de heróis do MCU nas próximas fases, a pouco carismática Kathryn Newton ironicamente acaba sendo um dos elementos mais fracos, no batido papel da adolescente rebelde Cassie Lang.
Atuando no modo automático, nomes consagrados como Michael Douglas e Michelle Pfeiffer provavelmente estão lá para garantir uns dólares numa etapa da carreira em que não precisam provar mais nada. E nesta toada, chega a ser quase incompreensível a participação de Bill Murray, por alguns desnecessários minutos, como uma espécie do canastrão Lando Calrissian, na sequência que remete ao bar de Mos Eisley de “Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança” (1977).
Já anunciado como a grande ameaça das próximas fases do MCU, o vilão Kang tem destaque muito mais pelo bom desempenho do seu intérprete, o talentoso Jonathan Majors (da série “Lovecraft Country”), do que pelo o que é mostrado. O nível do seu poder é basicamente exposto num diálogo que já havia sido conferido no episódio final da série “Loki”. Mas o ator imprime ali uma profundidade admirável, com expressões de amargura que, por vezes se transforma em sarcasmo, à medida em que é revelado que a sua frustração é proporcional às suas ambições nada generosas.
Um antagonista promissor ainda é pouco para uma leva de produções que…ainda estão só na promessa. “Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania” facilmente entra na discussão sobre qual é o longa-metragem mais fraco já feito pela Marvel Studios. Se nele a frase de efeito “nunca é tarde para deixar de ser otário” é capaz de alterar a personalidade de alguém, esse não parece ser o modus operandi da empresa multimilionária com o seu próprio público.
Obs: há duas cenas pós-créditos.
Nota: 3,0