
Poucos acreditavam quando o primeiro “John Wick” foi lançado, em 2014, que seria o início de uma franquia de sucesso que elevaria o patamar do gênero ação, além de colocar Keanu Reeves de novo na primeira prateleira de astros queridos de Hollywood. A fórmula ali foi estabelecida: fiapo de roteiro e coreografias impressionantes que garantiam a satisfação. “John Wick 4: Baba Yaga” (John Wick: Chapter 4, 2023) não tenta mexer no time que está ganhando, porém, consegue superar o próprio nível que os criadores estabeleceram, conquistando com sequências grandiosas a ponto de tornar a tarefa ainda mais desafiadora para a concorrência.
Na trama, John Wick (Reeves) segue foragido da “Cúpula”. No entanto, as chances de escapar desta vez parecem cada vez mais difíceis, pois o Marquis de Gramont (Bill Skarsgård), que conta com muitas alianças no submundo, promete não poupar investimento para colocar os melhores matadores do mundo para caçar o tão temido ex-assassino de aluguel.
O ex-dublê Chad Stahelski, diretor de todos os anteriores (apenas no primeiro a direção foi dividida com o não creditado David Leitch), segue no comando. A diferença é que, desta vez, ganhou mais liberdade para colocar suas ideias mirabolantes em cena, com o corte final tendo 169 minutos de duração, algo inusitado se tratando de um blockbuster sem maiores aprofundamentos de história e com a necessidade de mais sessões nos cinemas para garantir maior bilheteria. Pode soar cansativo? Talvez. Mas não para quem conseguir imergir na ideia de absurdo e apreciar a eficiente condução.
A franquia ficou marcada por um protagonista imbatível que sempre acaba se sobressaindo e matando um número incontável de adversários, com destaque para a mistura constante de lutas com o uso de armas, estilo chamado popularmente de “Gun Fu”. Não dá para dizer que o que acontece no quarto filme é diferente, seguindo o padrão de semelhança com um game que vai avançado de fases através dos combates. Tem pancadaria com nunchako, tiros que aparecem bem mais do que diálogos, planos demorados em cenários amplos e fotografia estilosa com paletas de vermelho, azul e néon, cães letais, características que tomam grande parte da projeção. A qualidade não só permanece, como adota com primor a ideia do “maior e melhor”.
Novos conceitos de ação são abordados, explorando cenários turísticos de cidades como Osaka, Paris e Berlim, sem tanto glamour como os longas de espionagem de 007, mas para palco para a matança. E a direção de Stahelski brilha na mesma proporção em que parece se divertir ao inserir um personagem cego que usa campainhas para auxiliar na orientação para tiros e colocá-lo num embate corporal com outro ostentando uma katana. Ele não teme o caricato ao apresentar um mafioso, trapaceiro que sabe trocar golpes, que parece um vilão de história em quadrinhos, com sobrepeso nitidamente feito por maquiagem e terno roxo.
Quando alguém pode imaginar que o longa vai seguir aquele padrão que todo mundo já conhece, Stahelski traz um longo plano-sequência que começa numa subida de escada e parte para uma tomada aérea, passando por diferentes cômodos e bandidos que pegam fogo ao serem atingidos. Ou uma perseguição com inúmeros elementos em cena nos arredores do Arco do Triunfo, sobrando batidas de veículos. Se a projeção parece estar se prolongando, vem uma chacina na escadaria num sobe e desce, cai e escorrega que impressiona só de imaginar o imenso trabalho para colocar em prática o que era imaginado. E quando tudo indica que a ampliação dos conceitos é uma constante, o cineasta premia com referências ao melhor do faroeste dirigido por Sergio Leone!
Quem espera por mais desenvolvimento do roteiro (possivelmente por não ter se acostumado com o que foi visto em outros três longas), a cargo de Shay Hatten (remanescente do terceiro) e Michael Finch (estreante na franquia), deve se decepcionar, pois os respiros existentes em meio a toda a movimentação servem em maior parte para apresentar os muitos novos personagens, certamente já pensando em futuros spin-offs.
A curiosidade fica por conta de um novo passeio por aquele universo de assassinos do Hotel Continental, toda a rigidez na “regularização” do trabalho daqueles matadores, incluindo sorteios de carta para definir regras de combate e tatuagem de brasão para a autorização de um desafio maior. Assim como as exposições para quem assiste são feitas de maneira dinâmica através de anúncios no rádio, seguidos de trilha-sonora que são inseridas na diegese (a realidade própria da narrativa) e funcionam para ampliar o efeito da ação.
A complexidade intrínseca nos personagens pode ser vista justamente com planos criativos do diretor, como a foto da filha do “vilão” Caine na sua apresentação, ou ao mostrar o protagonista sentado numa escadaria com uma igreja ao fundo (apesar de tudo, a religiosidade é forte), como uma redenção, apelando para flashbacks de curtos segundos para contextualizar o que está na memória. É interessante o paralelo religioso, inclusive nas vestimentas se assemelhando a um padre, em que Harbinger (o sempre ótimo Clancy Brown) dita as leis que são obedecidas sem nenhum questionamento.
Não tem como falar de John Wick sem dar o devido mérito à sua estrela. Keanu Reeves caiu nas graças do público não apenas pela sua simplicidade fora das telas, mas por um vigor físico para estrelar sequências que exigem habilidade em combate e manuseio de armas que, beirando os 60 anos, se torna muito diferenciado no gênero, figurando ao lado de Tom Cruise como uma atração à parte por tal disposição. A frieza do anti-herói até favorece a limitação dramática do astro, que só precisa de algumas frases de efeito para marcar o seu território de maneira simpática.
O elenco conta com alguns remanescentes como Ian McShane como Winston, que serve como uma controversa figura paterna do protagonista, e Laurence Fishburne, um antigo “amigo” que marca presença mais pela lembrança de “Matrix” (idem, 1999). Fica a nota pelo concierge Charon, vivido por Lance Reddick, ator que faleceu na semana do lançamento do filme, antes figura recorrente.
A maior novidade, sem dúvida, é Donnie Yen! Não que seu talento para as artes marciais seja novidade, mas ao interpretar alguém que não enxerga, o ator chinês imprime um ar até desajeitado num meio que exige superioridade. Mesmo com caráter duvidoso, é quase impossível criar antipatia por Caine, visto que ele carrega amargura quase que na mesma proporção que Wick.
O marquês vivido por Bill Skargård é propositalmente caricato, encarnando um tipo arrogante que oprime por causa de suas posses, se tornando carismático à medida em que soa covarde. Já o “Sr. Ninguém”, vivido por Shamier Anderson, rende alguns detalhes funcionais, como o colete à prova de balas tirado de uma mochila e o fiel cachorro, mas não é improvável que ele tenha sido inserido pensando em produções futuras.
Num curto intervalo, a série de filmes conseguiu marcar o seu lugar na história do cinema tendo como triunfo a qualidade num gênero nem tão apreciado no meio da arte. E “John Wick 4: Baba Yaga” crava esse lugar com muita criatividade e ousadia, sendo talvez o produto definitivo da marca. Seria um ponto final mais do que digno. O que sabemos bem que não deve acontecer, pois nesse mundo que tem o lucro como alvo maior, os realizadores vão escalar até encontrar um teto para bater a cabeça.
Nota: 9,0