Crítica: “O Urso do Pó Branco” é aquela bizarrice que funciona melhor na ideia do que na execução

Um urso muito louco por ter cheirado quilos de cocaína! A premissa, de tão absurda para um filme, conseguiu o objetivo de repercussão nas redes sociais e teve até divulgação com apresentação cômica no Oscar 2023. Instiga ainda mais a curiosidade ao saber que se trata de uma história real, que na verdade, nem é tão interessante assim: em 1985, na Geórgia, nos Estados Unidos, um urso (que foi depois apelidado de “Pablo EscoBear”) consumiu 30kg de drogas que caíram de um avião de um traficante…mas morreu rapidamente. É claro que “O Urso do Pó Branco” (Cocaine Bear, 2023) dá piruetas para criar situações bizarras e pode agradar quem comprar a proposta, sendo inevitável que prevaleça a sensação de estranhamento.

Na trama, um carregamento de cocaína cai de um avião em vários lugares no meio da floresta. Os mais de 200 quilos de drogas e potencialmente muito dinheiro pareciam perdidos. Os donos, um punhado de criminosos, não querem correr riscos. Na busca pela substância, porém, eles percebem que outro ser foi mais rápido do que eles: um grande urso preto. E agora, turistas, adolescentes, policiais e até os bandidos se encaixam no esquema de presas do animal.

Elizabeth Banks é uma carismática atriz que aos poucos está galgando passos como diretora (comandou os razoáveis “A Escolha Perfeita 2”, 2015; e “As Panteras”, 2019). Seu novo projeto teve a visibilidade que pode ser um divisor de águas na carreira atrás das câmeras e ela abraça parcialmente a proposta de exagerar e arrancar risos de situações nada convencionais, pois seria quase impossível levar à sério. Tal vertente talvez se torne uma armadilha para a cineasta, que por vezes parece se atrapalhar ao buscar um equilíbrio de tons na sua obra.

A narrativa se apresenta como um típico longa de décadas passadas que brinca com artificialidade dos fatos, tratando de chutar logo a veracidade nos créditos iniciais, quando descreve características de ameaça dos ursos e a fonte é a Wikipedia! Sem maiores detalhes, logo somos apresentados ao tal mamífero que parece saído direto de um desenho animado, alternando entre um CGI duvidoso e efeitos práticos que não tentam disfarçar o quão tosca é a ameaça principal, que sobe árvores com uma cômica facilidade.

A direção de Banks brilha justamente quando ultrapassa os limites do bom senso, como a sequência da ambulância, com uma ação crescente, aquela dose de terror trash com elementos que parecem de brinquedo, prevalecendo o humor que nem tenta ser involuntário. O clímax, com fotografia escura e um ar de grandiosidade com embates nas montanhas, torna quase impossível não abrir o sorriso ao conferir o pó voando pelos ares junto à neblina e praticamente “dando superpoderes” ao bicho fora de si!

Se a bizarrice toma conta de cena, não era de se esperar que o roteiro, a cargo de Jimmy Warde (do igualmente mediano “A Babá: Rainha da Morte”, 2020), não tivesse tanto aprofundamento além dos traficantes recuperarem a droga como pano de fundo para uma caçada sem noção. Mas ainda assim, há um excesso de personagens humanos que pouco acrescentam e, na tentativa de trazer alguma dramaticidade, acabam por gerar incômodo ao longo dos 95 minutos de duração.

Os guardas florestais vividos por Margo Martindale e Jesse Tyler Ferguson têm os melhores momentos justamente por serem caricatos, peças que encarnam o exagero proposto. Diferente do restante, praticamente um desperdício de bons nomes como Keri Russell, protocolar como uma mãe à procura da filha, e Alden Ehrenheich (lembram dele como Han Solo naquele longa péssimo de 2018?! Pois é!) que parece estar lá com uma má vontade daquelas. A sorte do público é que do lado dele está O’Shead Jackson Jr., que demonstra ótimo timing para a comédia, mesmo em cenas que soam deslocadas, como a pancadaria no banheiro.

Por mais engraçados que possam ser os diálogos entre as crianças que tomam boa parte da projeção, é notório o fraquíssimo desempenho de Christian Convery (que por sinal, faz um comovente trabalho na série “Sweat Tooth”). Por mais que a presença do ótimo Isiah Whitlock Jr. possa conferir peso, sua escalação parece ter o único motivo de colocar na tela uma cadela poodle para a audiência ter empatia. Ainda assim, fica o destaque para a participação do saudoso Ray Lyotta! Em seu último trabalho, ele traz a sua característica aura de canastrão e não decepciona em cena.

“O Urso do Pó Branco” poderia alcançar suas pretensões se apegasse na proposta do absurdo, centralizando justamente no urso do título praticando insanidades que superam a imaginação humana. Porém, ao ficar na dúvida entre os rumos a serem seguidos e focando a atenção em um monte de gente desinteressante, fica a impressão que o argumento foi melhor do que a execução.

Nota: 5,0

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