Crítica: “Super Mario Bros. – O Filme” é uma bela animação infantil e um presente para os fãs de diferentes gerações

Respondendo diretamente perguntas óbvias: “Super Mario Bros. – O Filme” (Super Mario Bros, 2023) vai agradar os fãs? Com certeza. É voltado principalmente para as crianças buscando angariar novos públicos? Sim. O fato de ausência de um roteiro com maiores aprofundamentos pode incomodar quem espera algo além da pura nostalgia. O que não impede que o resultado em geral faça arrancar muitos sorrisos sinceros daqueles que guardam memórias ao longo de quase quatro décadas com o carismático bigodudo do sotaque italiano.

Na trama, Mario é um encanador no bairro do Brooklyn, Nova York, junto com seu irmão Luigi. Um dia, eles entram por um cano e vão parar no reino dos cogumelos, governado pela Princesa Peach, mas ameaçado pelo Rei Bowser, que vai fazer de tudo para conseguir conquistar todos os universos.

Aqueles que lembram do desastre que foi a adaptação em live-action de “Super Mario Bros” de 1993, de um nível de falta de fidelidade que alguns espectadores até consideram o longa um cult do nível “de tão ruim que fica bom”, é mais do que entendível a cautela da Nintendo e do próprio Shigeru Miyamoto, criador do personagem, cuja primeira aparição nos games aconteceu em 1985, em autorizar novas versões para as telas grandes. Precisava ser uma equipe realmente comprometida com o material original e, até pelo enredo naturalmente infantil, a saída por uma animação se mostrou a mais plausível para agradar a audiência.

A Illumination Entertaiment, empresa responsável pelos sucessos comerciais “Meu Malvado Favorito” (2010) e “Minions” (2015), pareceu a opção mais segura para atingir o maior público possível. E para comandar o desafio, talvez a escolha mais acertada, por Aaron Horvath, que dirigiu os ótimos “Mad” (2011-2012) e “Os Jovens Titãs em Ação” (tanto a série animada como o longa para os cinemas de 2018), que levou com ele Michael Jelenic, com quem havia trabalhado nesse último. Além de mostrarem domínio das técnicas desenvolvidas, a dupla imprime um enorme respeito ao material da mídia original, compreendendo ser essencial para o funcionamento do projeto.

A animação é um deleite aos olhos, extremamente colorida, com gráficos que remetem diretamente ao visual dos jogos e mostram movimentos críveis. Motivo que já garante a simpatia de boa parte do público infanto-juvenil. Mas as referências para quem conhece de fato as diversas fases de Mario e Luigi dos consoles (e isso vale para quase todos os jogos, World, Kart, Yoshi’s Island, Luigi’s Mansion, entre muitos outros) estão presentes quase o tempo inteiro, com um festival de easter-eggs praticamente em cada frame, garantindo a satisfação de outro grande leque de espectadores.

Quem já passou dezenas de horas jogando aventuras que não iam muito além de pisar em tartarugas, entrar em canos, acumular moedas e ganhar poderes surpresas, certamente vai sentir o efeito na narrativa que trata de capturar diversos desses momentos (assim como a aparição de muitos personagens familiares) de maneira simples para aquela história a ser contada. Assim como em obras de ação ou musicais, é natural que certos elementos sejam planejados antes mesmo da construção do roteiro e isso não é um problema se executado de maneira eficaz, como acontece nesta adaptação.

A direção de Horvath e Jelenic é eficiente ao emular os modos de jogo, como no travelling com câmera lateral remetendo aos games dos anos 90, ou a apresentação de Princesa Peach na simulação de perigo, num 3D em terceira pessoa que lembra o início desse estilo de jogabilidade no Nintendo 64 (que por sinal…muitas camisas com esse número aparecem na projeção). As trilhas famosas dos games são utilizadas de maneira precisa na narrativa, com variações do tema principal de acordo com a situação, ou até mesmo utilizando outras, como a da famosa “fase subterrânea”, de maneira diegética (quando a fonte sonora está, de fato, em cena).

O roteiro de Matthew Fogel (de “Minions 2: A Origem de Gru”, 2022) é bem rasteiro, utilizando um fiapo de premissa para adentrar num universo mágico e, lá, deitar e rolar nos acenos que vão agradar os fãs. Além disso, as músicas “de fora” escolhidas beiram o clichê, casos de “No Sleep Till Brooklyn” (Beastie Boys), “Holding Up For a Hero” (Bonnie Tyler) – que só em 2023 também foi ouvida em “Shazam! Fúria dos Deuses” e “Tetris” -, “Take On Me (A-Ha) e “Thunderstruck” (AC/DC).

A narrativa é apressada, surtindo uma sensação semelhante a fases de um game. Os diálogos são bem diretos e com algumas frases de efeito, às vezes funcionando quando parece conseguir rir dessa própria limitação, caso do carisma mórbido da “Lumalee”. Agrada, por exemplo, quando um coadjuvante fala que o protagonista que acabara de conhecer “é o seu melhor amigo”, ou quando o Mario descreve Lugi como “igual a mim, só que magro, alto e verde”, como muitos jogadores já devem ter feito tal definição em algum momento da vida.

Para quem se encantar com a materialização nas telas daquele universo, é normal o desejo de ficar na companhia daquela turma por mais 30 minutos. Poderia aprofundar mais na família em Brooklyn, no universo dos cogumelos ou mesmo o sombrio mundo dos Koopas. Porém, é entendível a proposta de finalizar com 92 minutos, tempo para ninguém ficar saturado, prevalecendo um padrão (nem tão positivo, é verdade) das animações da Illumination.

Mario (voz de Chris Pratt no original e Raphael Rossatto na versão dublada) é o protagonista óbvio, sendo ele quem utiliza a maior parte dos “potencializadores” já conhecidos. Se o Luigi (vozes de Charlie Day e Manolo Rey) desta vez fica de escanteio durante boa parte da trama (como o típico “Player 2”), a Princesa Peach (vozes de Anya Taylor-Joy e Carina Eiras) ganha destaque por fugir do papel de moça indefesa a ser salva, e sim, uma líder de uma nação que tem muito mais habilidade em combate do que os demais.

O vilão Bowser rouba a cena sempre que aparece, quebrando os paradigmas da figura ameaçadora ao mostrar o lado apaixonado/tóxico, sobressaindo a escolha de Jack Black (Márcio Dondi na versão brasileira) para os números musicais. O outro gigante, Donkey Kong, parece ter sido escrito na medida para Seth Rogen (Pedro Azevedo aqui), como alguém cheio de si, mas que usa tal arrogância e força física para sobepor a figura boba e insegura que realmente é. Por fim, o Toad (vozes de Keegan-Michael Key e Eduardo Drummond) serve como o alívio cômico que, apesar da aparência inocente, é o que mais tem vontade de aparecer no meio de tantas figuras excêntricas.

Com sucesso de bilheteria na semana de estreia, “Super Mario Bros. – O Filme” certamente vai atingir vários objetivos dos inúmeros realizadores envolvidos e uma continuação deve ser confirmada em breve. Ao mesmo tempo, aqueles muitos que perdiam o fôlego assoprando cartuchos para conseguir jogar Mario também foram muito bem representados. Isso tem muito valor!

Nota: 8,0

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