Crítica: Live-action de “Os Cavaleiros do Zodíaco” pisa sem piedade na memória afetiva dos fãs

O anime “Os Cavaleiros do Zodíaco” (Saint Seya, 1986-1989), da Toey Animation, foi um fenômeno no Brasil entre crianças e adolescentes durante a década de 90. Tinha como principal marca as batalhas épicas e violentas ao extremo, trilha sonora que beirava a breguice para transmitir a dramaticidade existente naqueles personagens, além da mistura de mitologia com armaduras estilosas. Daí fica a pergunta: seria possível provocar o mesmo impacto num longa em live-action e ainda angariar uma nova geração de fãs? Se a resposta for esse desastroso “Os Cavaleiros do Zodíaco – Saint Seiya: O Começo” (Knights of the Zodiac, 2023), a ofensa às memórias do passado é quase certa.

A trama acompanha Seiya (Mackenyu), um órfão que mora nas ruas e recebe um chamado após uma energia cósmica despertar dentro de si. Ele embarca em uma jornada para conquistar a antiga armadura grega de Pégaso e lutar na batalha sobrenatural pelo destino de Athena (Madison Iseman), uma jovem que luta para controlar seus poderes.

Deixando bem claro: uma adaptação não necessita ser totalmente fiel ao material original. Mudanças são necessárias e, muitas vezes, bem vindas. Por isso, para contar uma história de origem, compreende-se a decisão de focar no protagonista Seiya e deixar de fora personagens icônicos como Shiryu, Hyoga e Shun, por mais doloroso que possa parecer. O que fica difícil de aceitar é quando a nova versão parece ter vergonha do produto que a inspirou e, os elementos conhecidos, em grande maioria, são apresentados e executados de maneira vergonhosa.

Um personagem tão forte como Ikki de Fênix (que recebeu o nome de Nero na fraquíssima animação norte-americana da Netflix e assim mantiveram), vivido pelo inexpressivo Diego Tinoco, é relegado ao papel de um capanga qualquer que usa brinco como forma de caracterizá-lo como vilão. O gigante Cassios (pobre Nick Stahl, um dia ele foi uma boa promessa!), que na lembrança de muitos já lutou pela armadura de Pégaso, entra na sopa de um exército de robôs assassinos (?!) cuja função se assemelha a dos bonecos de massa do seriado Power Rangers, ou seja, estão lá para apanhar.

Falando em armadura, o elemento surge de maneira nada convincente no longa. O clima é negativo para a aparição e, quando enfim é materializado, soa tão artificial que inúmeros cosplays já devem ter feito algo melhor. Capacetes folgados e designs feios, fica impossível engolir que alguém é capaz de lutar com aquelas vestimentas.

O estreante diretor polonês Tomasz Baginski até conduz sequências de lutas eficientes, com coreografias que remetem a poses do anime, planos fechados no rosto de alguém que corre para atingir o adversário. Mas até essa vertente que tem o seu valor é atrapalhada pela montagem atropelada, cheia de cortes que não deixam os combates fluírem. Os efeitos especiais não são dos melhores, mas em tempos de crise no setor em inúmeras superproduções, acaba sendo o menor dos defeitos em meio a tanto erro.

Chega a ser surpreendente que o roteiro tenha sido escrito por três autores, Josh Campbell, Matt Stuecken (ambos de “Rua Cloverfield, 10”, 2016) e Kiel Murray (“Carros”, 2006), pois os acontecimentos decorrem numa rapidez absurda e muitos não fazem sentido. Afinal, qual a motivação de Cassios querer matar o Seiya a qualquer custo? A vilã Guraad, vivida por Famke Janssen (ela é uma atriz razoável, mas não esconde a extrema má vontade de estar neste trabalho), e Alman Kido (o veterano Sean Bean, um dos poucos que entrega uma performance decente dentro do possível) mudam de personalidade após qualquer conversa rasa.

Tudo se apoia no “cosmo” como a desculpa para tudo, um superpoder que pode salvar a reencarnação de uma deusa e, quem não quiser, que trate de impedir! Uma “jornada do herói” que poderia perfeitamente ter sido formulada pelo Chat GPT. Para os fãs, restam poucos acenos, como o treinamento de Seiya com Marin (vivida por Caitlin Hutson, que pelo menos a voz, imprime o mistério que ela carrega), que dura bem menos tempo do que deveria. Entre uma batalha e outra, diálogos rasteiros com trilha sonora de fundo que insiste sem sucesso em provocar sentimentalismo. Há uma variação da famosa “Pegasus Fantasy” por alguns segundos que só serve mesmo para lembrar o público mais velho que se trata de algo preexistente.

Mackenyu (live-action baseado em anime é com ele mesmo, tendo no currículo “Samurai X: O Final”, 2021; e “Fullmetal Alchemist”, 2022) não compromete no papel principal. Mas na contramão vem o carisma nulo de Madison Iseman (ela já passou vergonha em dobro interpretando gêmeas na pavorosa série “Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado”, 2021), se mostrando uma infeliz escolha para viver Sienna (Saori na versão brasileira). Além de não ter química com o protagonista, é difícil comprar a ideia de que aquela garota apática viria a se tornar a deusa Athena. E as escolhas da produção para fazer referência ao cabelo roxo do desenho só torna o negócio ainda mais tosco!

O destaque solitário fica por conta do experiente e eternamente subestimado Mark Dacascos como Mylok, uma versão do Tatsumi, o segurança da família Kido. Além de mostrar a sua habilidade nas artes marciais, ele funciona como alívio cômico, a figura ao mesmo tempo acolhedora mas letal quando necessário.

“Os Cavaleiros do Zodíaco – Saint Seiya: O Começo” apresenta um resultado semelhante ao que o péssimo “Dragonball Evolution” teve em 2009, trazendo a discussão: vale à pena destruir a lembrança de animes que são produtos de suas épocas e claramente não combinam com visões realistas? Colocar “O Começo” no título se mostrou uma audácia e tanto, pois a chance do público-alvo desejar que essa vergonha tenha continuidade é beirar o masoquismo.

Nota: 1,0

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