Crítica: “Guardiões da Galáxia Vol. 3” é a despedida digna de James Gunn de personagens que ele cultiva afeto

O Universo Cinematográfico Marvel (MCU) já estava estabelecido em 2014 quando o diretor James Gunn lançou o primeiro “Guardiões da Galáxia” (Guardians of the Galaxy), apresentando uma equipe disfuncional pouco conhecida dos quadrinhos, destoando bastante dos tão poderosos “Vingadores”. O resultado é um longa que entra fácil para a discussão do Top 3 de melhores produções da turma de Kevin Feige ao longo dos últimos 15 anos.

Muita coisa aconteceu de lá pra cá. Gunn foi demitido, foi para a rival DC Studios onde lá fez o ótimo “O Esquadrão Suicida” (2021) e a série “O Pacificador” (2022), virou objeto de cabo de guerra entre as empresas e hoje é nada menos que co-presidente executivo e co-CEO da DC! Mas não sem antes se despedir daquele grupo excêntrico da Marvel/Disney que ele foi tão essencial para cativar a audiência. E “Guardiões da Galáxia Vol. 3” (Guardians of the Galaxy Vol. 3, 2023) é tudo aquilo que se espera dele: divertido, emocionante e à altura do legado construído!

Na trama, os Guardiões da Galáxia buscam se estabelecer na comunidade conhecida como “Lugar Nenhum”. Mas não demora muito para que uma tragédia aconteça, suas vidas sejam reviradas e a equipe precisa encarar uma nova missão para salvar um integrante.

O terceiro “Guardiões” chega num momento peculiar do MCU, passado o êxtase vivido em “Vingadores: Ultimato” (Avengers: Endgame, 2019) em que os longas das fases 4 e 5 têm apresentado uma nítida queda de nível, muitos soando genéricos e priorizando efeitos especiais cada vez mais questionáveis. Mas o mérito dessa “despedida” de James Gunn é justamente manter a base que consagrou suas obras, focando nos personagens, gags com referências ao universo pop e trilha-sonora marcante, sem se preocupar tanto com conexão com um universo maior.

Ao abrir logo com uma versão acústica de “Creep” (Radiohead), o diretor sabe manipular bem o próprio público com o ar de nostalgia e melancolia que viria a permear a obra. Pode parecer óbvio, mas o coração depositado em cada elemento é notório, tornando o episódio diferenciado de muitos blockbusters recentes (mesmo sendo uma superprodução de impressionantes R$ 250 milhões).

O maior triunfo é transferir o protagonismo de Peter Quill para Rocket Racoon (voz cada vez mais memorável de Bradley Cooper). Não à toa desde o início está nas mãos dele o tocador de MP3 que insere as músicas de maneira diegética (quando a fonte sonora está, de fato, em cena). Mesmo ficando de fora da linha temporal principal, os flashbacks que mostram a sua até então misteriosa origem são carregados de drama e certamente vão arrancar algumas lágrimas de quem assiste. A jornada principal é dele, numa funcional montanha-russa emocional.

Mas também está lá a essência de Quill (talvez a atuação mais madura de Chris Pratt como o personagem), um terráqueo filho de um “Planeta Vivo” que teve a mãe morta ainda na infância, criado pelo mercenário que foi contratado para matá-lo, e agora lida com a perda do grande amor da vida, Gamora (Zoe Saldana, que sai da zona de conforto ao imprimir uma personalidade totalmente nova), que por sua vez, foi sacrificada pelo pai Thanos e uma “variante” dela foi trazida de outro universo.

Drax (o sempre carismático Dave Bautista) segue aquele bobalhão com um porte físico que contrasta com a bondade e o instinto paterno. Suas piadas propositalmente deslocadas ainda arrancam bons risos, mas, o excesso ao longo dos 150 minutos de projeção acaba soando repetitivo e muitas vezes quebrando momentos dramáticos. Como suporte ao seu arco, Mantis (Pom Klementieff com sua delicadeza tradicional) agrega como uma boa parceria, alguém que sempre se sentiu deslocada no mundo e, ironicamente, tem o poder da empatia.

Nebula (a ótima e até subvalorizada Karen Gillan) é talvez quem tenha ganhado maior desenvolvimento, alguém torturada pelo próprio pai que acaba assumindo as rédeas e exercendo o papel de liderança num grupo despedaçado. Outros naturalmente acabam ficando de lado, casos de Kraglin (Sean Gunn) e a fofa cadela Cosmo (voz de Maria Bakalova), porém, o diretor faz questão de entregar a eles bons momentos individuais.

É costumeiro da Marvel introduzir antagonistas que atraem a simpatia do público, mas James Gunn ousa ao fazer do Alto Evolucionário (Chukwudi Iwuji, uma grata revelação vinda da série “O Pacificador”) alguém cruel e detestável ao extremo, o que acaba sendo positivo para a narrativa. Seus atos são revoltantes a ponto de instigar que ele não receba qualquer redenção.

Visto que Groot (voz de Vin Diesel) é restrito a uma frase e o visual que altera a cada capítulo, ele se destaca num elemento que sobe alguns degraus: a ação. A icônica árvore funciona como um “canivete” para armas e está mais violento do que o de costume. Como a equipe se mostra mais entrosada do que nunca, a direção conduz cenas com travellings com tiroteios e embates corporais com muita sinergia entre os elementos envolvidos. O ápice é visto num corredor, um plano sequência que pode ser comparado a “John Wick com muito CGI”, que certamente já entra para os highlights do MCU, valorizando todos os personagens ali presentes.

Porém, além da ausência do fator novidade, o produto tem suas imperfeições. Detalhes do roteiro parecem abandonados com extrema rapidez, como a subtrama do alcoolismo de Peter Quill, além da necessidade de deixar pontas soltas, mesmo sabendo que não haverá a curto prazo o retorno do principal realizador. Alguém tão poderoso nas mídias originais, Adam Warlock (vivido de maneira esforçada e descontraída por Will Poulter) parece inserido sem tanto propósito. Mesmo não comprometendo, muito por causa do seu intérprete, a impressão é que ele está voando por fora da viagem que importa de fato para todos.

Utilizar “Dog Days Are Over” (Florence + The Machine) para provocar uma mistura de sensações é uma amostra de que James Gunn é um diretor não inventivo, mas que sabe o que faz. Ele não está no hall dos cineastas mais talentosos do cinema. Mas ele utiliza elementos que tem apreço com uma habilidade admirável. Por isso hoje é figura chave em Hollywood, pois com peças famosas (ou nem tanto) do grande público nas mãos, é capaz de desbravar universos de forma encantadora, assim como o fez com a trilogia “Guardiões da Galáxia”!

Obs: há duas cenas pós-créditos.

Nota: 9,0

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