
Sabe as tradicionais reuniões familiares de fim de ano, as ceias de Natal? Alguns amam, mas nem todos são fãs. E tem aquele caso do tio metido a engraçado que insiste em repetir a piada do “É pavê ou pacumê?!”, sabendo que é constrangedor e, quem compreende que a intenção foi ser tosco de propósito, se rende ao sorriso desconcertante. Pois bem, há alguns anos, “Velozes e Furiosos” se sustenta numa proposta semelhante e todas as noções de falta de bom senso são elevadas a um patamar ainda mais alto neste “Velozes e Furiosos 10” (Fast X, 2023), que pelo menos na teoria, é o início do fim de uma saga que, contra tudo e todos, tem uma audiência fiel.
Na trama, Dom Toretto (Vin Diesel) e sua família precisam lidar com o adversário mais letal que já enfrentaram. Alimentada pela vingança, uma ameaça emerge das sombras do passado com o objetivo de fazer Dom e todos que ele ama sofrerem.
O artifício de “desligar o cérebro” é algo bastante delicado visto que o ser humano não tem um botão para tal e apreciar o cinema faz parte da existência. Mas se tratando de “Velozes”, a artimanha se torna cada vez mais necessária e, quem consegue, parabéns! Ganha algumas horas de entretenimento! É algo que se repete neste capítulo, em que o diretor Louis Leterrier (“O Incrível Hulk”, 2008; “Truque de Mestre”, 2013), que substituiu o recorrente Justin Lin (ele comandou cinco filmes da franquia) que saiu do projeto por “divergências criativas” (leia-se atritos com o astro principal), entrega mais um festival de cenas de ação bem conduzidas na mesma proporção em que fogem da realidade.
Quem acompanha, sabe que qualquer coerência já foi para o espaço. Literalmente! Em “Velozes e Furiosos 9” (2021), um meme foi materializado e um carro com um foguete acoplado foi mandado para fora da Terra de qualquer jeito, num contraste com aquele início em 2011, quando “racheiros” assaltavam caminhões para roubar aparelhos de DVD. As leis da Física e de qualquer forma Divina vão sendo ignoradas ao longo de mais de duas décadas. Então, se no décimo longa alguém ainda espera algum mínimo de inteligência, certamente esse indivíduo vai se satisfazer mais gastando o precioso dinheiro com outra opção no cinema. Quem sempre gostou, dificilmente vai mudar, por mais que os realizadores forcem a barra para alguns repensarem as ideias com o ganho da maturidade.
Temos um passeio frenético por diversos países, ainda seguindo a pegada dos longas sérios de espionagem, com perseguições que incluem veículos estilosos (algo que agora virou um mero detalhe), motos, caminhões, carros-fortes, mísseis, bola-bomba, elementos caindo de aviões com a maior naturalidade do mundo, embates corporais que utilizam elementos das artes marciais de maneira eficaz. Temos explosões para todos os lados, numa narrativa que se assemelha cada vez mais a um desenho animado ou vídeo-game. Se divertir do quão surreais são as situações apresentadas ainda funciona.
Para quem já se acostumou com personagens que morrem mas sempre ressuscitam e vilões que facilmente mudam de lado e se tornam parte da “família”, ignorar as conveniências do roteiro, a cargo de Dan Mazeau (“Fúria de Titãs 2”; 2012) e Justin Lin, se torna quase obrigação. Os personagens pulam de um país para o outro numa velocidade assustadora, se encontram de maneira ainda mais fácil mesmo estando foragidos, tecnologias de alto nível deixam de serem usadas sem maiores explicações, entre outros detalhes. Por que o vilão esperou dez anos para colocar a vingança em prática? Melhor perguntar para ele, que provavelmente sairia gargalhando e dançando, sem trazer resposta.
Se aqui existe uma carta na manga, esta é justamente o antagonista vivido por Jason Momoa, que parece estar curtindo como nunca ao viver alguém propositalmente acima do tom até no figurino, cartunesco, uma mistura bizarra de Pernalonga com Jack Sparrow e Coringa! Não estaria ele certo ao entrar de cabeça nessa loucura proposta e aloprar de vez? No fim das contas, ele parece encarnar o espectador que apenar quer sorrir com aquela bagunça e ainda soa ameaçador justamente pela falta de empatia com aqueles que ele quer provocar. Interação com cadáveres? Inédito!
Mas a pretensão parece ser sempre maior do que a realidade do mero abraço no absurdo. Como se trata de um desfecho, soa que este tenta ser o “Vingadores: Guerra Infinita” (Avengers: Infinity War, 2018) deste universo, esperando pelo “Vinagdores: Ultimato” (Avengers: Endgame, 2019) em que vai ocorrer um encontro triunfal de todos os conhecidos. Por isso, ao lidar com tantas peças no tabuleiro, as figuras são divididas em subtramas que, neste caso, não se conectam.
Existe o arco principal (salvar a família!), mas os envolvidos são separados e temos os já repetidos alívio cômicos (Tyrese Gibson e Chris “Ludacris” Bridges, agora na companhia de Sung Kang e Nathalie Emmanuel) fazendo zoeiras aleatórias e mulheres mostrando o talento diferenciado no gênero ação (Michelle Rodriguez e Charlize Theron sempre convencem). Dentre as novidades, Brie Larson e Alan Ritchson não fazem feio, seguindo a tradição de substituir outro personagem (no caso, ambos pegam a vaga deixada aberta por Kurt Russell).
Mesmo com um elenco tão inflado, John Cena se destaca ao imprimir muito carisma ao “Tio Jakob”, brincando ao repetir alguns golpes dos tempos de WWE e formando uma dupla improvável com o pequeno Leo Abelo Perry. Quem, em teoria, é mais forte do que a maioria ali, Shaw, vivido por Jason Statham, tem pouco tempo de tela, pois claramente guardaram o melhor dele para a continuação.
Tudo gira mesmo em torno do protagonista, Vin Diesel, e sua habitual antipatia tanto em cena como nos bastidores, a ponto de ser o responsável por decisões que já causaram impasses com tantos envolvidos. É impressionante como ele atua como se tivesse pleiteando um Oscar e tudo ao seu redor fosse extremamente sério, quando claramente ele não tem talento dramático e a galhofa está escancarada. Dominic Toretto, no fim das contas, se resume a um cara imbatível que profere frases de efeito e de autoajuda como uma metralhadora.
Com um orçamento estimado em nada menos que U$ 340 milhões, provavelmente para pagar tantos nomes de peso, os realizadores sequer se preocuparam em terminar com um gancho decente para o próximo episódio, que contará com ainda mais “surpresas” nesse time que ninguém sabe mais aonde encaixar. Mas Vin Diesel já deu declarações de que o fim pode acontecer num eventual 12° filme, não mais no 11°, sinal de que a Universal Pictures não está tão preocupada com dinheiro, pois retorno do público, a saga tem.
Nota: 5,0