
Chega a ser irônico que o longa-metragem sobre o velocista mais famoso da cultura pop tenha chegado aos cinemas com tanto atraso. Com planejamento desde 2008, vários roteiros descartados, incontáveis trocas de diretores e, principalmente, um caminhão de polêmicas (que podemos, sim, chamar de crimes!) envolvendo o protagonista Ezra Miller fizeram o público duvidar que o projeto fosse lançado. Para completar, o período para lançamento não ajuda em nada, pois o controverso universo da DC Studios construído por Zack Snyder já está com os dias contados, pronto para o início da “gestão James Gunn”.
Nesse cenário, não surpreende que “The Flash” (idem, 2023) pareça um conjunto de peças jogadas de maneira bagunçada que até se encaixam num quebra-cabeça daqueles que satisfazem quando completo. Até o hype criado pela Warner Bros. jogou contra após realizar uma exagerada quantidade de sessões para influenciadores e para fãs antes da estreia oficial, sendo divulgado que era “o melhor filme de super-herói já feito desde ‘O Cavaleiro das Trevas’, 2008”. Uma bomba para quem alimenta expectativas! O filme apenas diverte e trata com respeito o que fora criado pela DC ao longo de décadas. O que, no fim das contas, poderia ser o suficiente para boa parte do público-alvo.
Na trama, Barry Allen (Miller) decide viajar no tempo para evitar o assassinato de sua mãe (Maribel Verdú), pelo qual seu pai (Ron Livingston) foi injustamente condenado à cadeia. O que ele não imaginava seria que sua atitude teria consequências catastróficas para o universo.
O diretor argentino Andy Muschietti (“Mama”, 2013; “It” Partes I e II, 2017 e 2019), que assumiu a difícil missão num contexto nada favorável, acerta ao tocar o projeto como majoritariamente uma comédia sobre viagem no tempo, num roteiro que parece um queijo suíço de tantos buracos, tendo passado por quatro pessoas: John Francis Daley e Jonathan Goldstein (dupla do recente “Dungeons & Dragons”, 2023), Joby Harold (“Army of the Dead”, 2021) e Christina Hodson (“Aves de Rapina”, 2020). Citar o clássico “De Volta Para o Futuro” (1985) pode até ser lugar-comum, mas o texto arranca boas gags sobre histórias reais dos bastidores.
O arco principal de salvar a morte da mãe de Barry Allen garante um momento emocionante lá pelos minutos finais, mas a maior parte da projeção de 144 minutos se sustenta no estilo atrapalhado e autoestima baixa do personagem principal, que se autointitula o “faxineiro da Liga da Justiça”. Ao precisar interagir com uma outra versão mais inexperiente (que convenhamos, muitas vezes soa bobo até demais), enfim, ele ganha maturidade ao precisar assumir o papel de mentor.
Mas a produção parecia ter consciência de que necessitava de apelos mais fortes e o retorno de Michael Keaton como Batman se mostra mais do que acertada. Além de muitas referências aos longas dirigidos por Tim Burton em 1989 e 1992, o Homem-Morcego ganha os melhores momentos visuais e cenas de embates corporais, com Keaton aos 72 anos demonstrando muito à vontade no icônico papel e entregando uma atuação bem segura como a versão mais madura de Bruce Wayne. A emblemática trilha-sonora de Danny Elfman que o acompanha só potencializa a nostalgia bem construída.
Outras presenças conhecidas desde o material de divulgação, a Supergirl tem pouco tempo em cena, mas a atriz estreante Sasha Calle até se esforça ao imprimir uma atuação mais pessimista e desiludida diante de tantas perdas (afinal, o planeta dela foi destruído!). Já o Bruce Wayne/Batman de Ben Affleck parece menos no modo automático, num meio termo entre o peso dramático e a aceitação como um amigo de fato daqueles com quem “trabalha”. Pareceu uma despedida rápida, porém, de bom grado.
As seqüências de ação são eficientes no conceito, porém, são bastante prejudicadas na execução por causa dos efeitos especiais problemáticos. Hollywood vive uma crise nítida de má valorização dos profissionais que fazem CGI e estamos vendo muitas coisas bizarras, inclusive na rival Marvel. Ficou fácil ignorar em muitas ocasiões, mas em “The Flash”, o buraco é profundo. Por exemplo: cenas com elementos em “slow-motion” viraram constantes após aquela do Mercúrio em “X-Men: Dias de um Futuro Esquecido” (2014), a forma como foi pensada a primeira salvação é criativa, mas fica difícil não rir com tamanha artificialidade de certos bebês. A quantidade de “bonecos” na tela vai além do tolerável.
E como a moda do multiverso pede o surgimento de participações especiais para arrancar aplausos dos espectadores, o longa até que se mostra contido na maior parte do tempo. Mas reserva um momento em específico para entregar um caleidoscópio de referências a figuras emblemáticas já vistas na TV ou no cinema (ou até mesmo que nunca havia sido materializada) e certamente garante o sorriso quando acontece a identificação, apesar do incômodo do CGI feio. Tais surpresas servem como meros “papéis de parede”, sem função prática na narrativa. Ainda assim, pareceu mais como uma honesta homenagem ao longínquo mundo da DC do que uma trapaça comercial.
Sobre Ezra Miller, só lamentos. Sim, é triste ver que um ator seja tão desequilibrado na vida real, mas tão talentoso a ponto de quase conseguir fazer a audiência dissociar o personagem da pessoa. Tem carisma e timing cômico. Basta ver o humor corporal quando a história faz graça da forma como o herói corre. Entrega drama quando é exigido, algo que já havia demonstrado em papéis anteriores. Desta vez fazendo duas versões diferentes que sempre interagem entre si, demonstra uma boa desenvoltura em dobro.
Propagandas enganosas e a imagem manchada do ator principal certamente estão afetando as bilheterias de maneira contundente. Obviamente, não se trata de uma obra memorável e muitos defeitos são nítidos. Mas “The Flash” não merece ódio, pois dentro das limitações de um personagem criado em meados de 1959, ganhou um longa-metragem que carrega a aura das histórias em quadrinhos com uma pegada inocente e acenos para quem acompanha a trajetória da DC. E a sua passagem, perdão pelo trocadilho, será mesmo rápida.
Nota: 5,0