Crítica: “Indiana Jones e A Relíquia do Destino” joga no seguro até demais para entregar despedida razoável

Um dos personagens mais icônicos do cinema, Indiana Jones teve uma penúltima aparição bem amarga no tão fraco quarto filme, “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” (2008). Por isso, a Disney e a Paramount Pictures viram num novo resgate a chance de uma despedida digna não apenas para o público, mas também para o seu intérprete, Harrison Ford, agora com 81 anos. Desta vez sem Steven Spielberg na cadeira de diretor, “Indiana Jones e A Relíquia do Destino” (Indiana Jones and the Dial of Destiny, 2023) trata de seguir o manual de nostalgia com características que marcaram a trilogia clássica, que funciona para evitar estranhezas, ao mesmo tempo em que coloca o quinto longa num lugar pouco memorável.

A trama é situada em 1969. Indiana Jones (Ford) luta para se encaixar em um mundo que parece tê-lo superado. Mas quando um mal muito familiar retorna na forma de um antigo rival, ele deve colocar seu chapéu e pegar seu chicote mais uma vez para garantir que um poderoso artefato não caia nas mãos erradas e altere o curso da história.

Agora com James Mangold (“Logan”, 2017) na direção e também no roteiro ao lado de John-Henry Butterworth, Jez Butterworth (ambos trabalharam com Mangold em “Ford vs Ferrari”, 2019) e David Koepp (“Jurassic Park”, 1993; “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, 2008), a equipe de produção demonstra ter consciência de que o tempo é o fator crucial a ser trabalhado.

O protagonista agora é idoso e vive num período de avanço tecnológico: a chegada do homem na Lua. Justamente ele que vive da disciplina de História e de aventuras para recuperar artefatos do passado. O “McGuffin”, objeto desejado que movimenta o enredo da vez, não à toa, é um relógio. Para isso, o carrancudo Harrison Ford surge de cueca, exibindo o corpo com as marcas dos anos. Sua aula que antes fazia garotas suspirarem, agora é para jovens poucos interessados naquilo que ficou para trás.

É imersiva a longa introdução, com cerca de 20 minutos, com Indy mais jovem, numa tradicional correria em busca de algo, fazendo conexão com a trama principal. A essência está lá, trazendo de volta velhos antagonistas que ele adora espancar: nazistas. Impressiona a qualidade da moderna tecnologia de CGI para rejuvenescimento quando a câmera está mais próxima do ator, porém, em alguns momentos, vira distração quando ele está em movimento, com a consciência de que se trata de um dublê, ou apenas efeitos digitais quando um “boneco” pula pelos vagões do trem.

Mas como o projeto demorou para ganhar vida e passou por diferentes mãos, as ideias são apenas apresentadas e pouco se desenvolve. As limitações físicas parecem desaparecer quando o roteiro quer, apesar do herói resmungar que o corpo está avariado após tantos danos. Há justificativas rápidas para a ausência do filho, vivido por Shia LaBeouf, que não funcionou no longa de 2008, e da eterna amada Marion, vivida por Karen Allen, durante a maior parte da projeção. Vertentes que garantem momentos emocionantes que potencializariam a obra se fossem mais explorados. Porém, a narrativa prioriza a corrida frenética por diferentes cenários, muitos deles artificiais, com referências a acontecimentos que os fãs vão curtir identificar.

James Mangold é um cineasta competente, mas não é Steven Spielberg. Ele até tenta emular o estilo de ação do mestre que marcou a franquia, com malabarismos quase circenses, socos singulares que fazem desmaiar (assinatura presente aos montes!), fugas da morte em que os próprios elementos em cena sorriem pela conveniência proposital do roteiro. A sequência do cavalo no metrô tem o absurdo tão característico, mas outras como a perseguição num carro “Tuk Tuk” são bem pouco inventivas, com muitos cortes e noção de espaço que deixa a desejar. Com longos 154 minutos de duração, a repetição começa a bater, ficando a impressão que cerca de 30 minutos a menos poderiam beneficiar o resultado final.

A franquia sempre teve um pé no sobrenatural e, desta vez, atingiu o patamar mais alto da fantasia. Mas dentro do contexto, é possível dizer que foi uma decisão que contempla aquele ícone com algo que ele merecia antes de pendurar o chapéu. Ele é de outra geração, mas segue vivo e vai perdurar na memória de muita gente.

Com orçamento de cerca de R$ 300 milhões (o prejuízo vai ser grande devido o retorno nas bilheterias bem abaixo do esperado), o longa abusa do uso de computação gráfica, tornando perigos bem menos reais em passagens que fazem alusão aos outros capítulos, como as enguias que parecem cobras (o maior medo de Jones) e o corredor cheio de insetos gigantes. A tão emblemática trilha-sonora de John Williams, sempre alterando o tom de acordo com o sentimento do momento, ainda é capaz de aquecer o coração, mas toca tantas vezes que vai caindo no trivial.

Conhecido por não ser a pessoa mais simpática longe das câmeras, Harrison Ford tem um carinho especial por Indiana Jones e isso é perceptível, conferindo força extra ao projeto. Ator e personagem se confundem, ainda mais ranzinza do que de costume, mas com olhar apaixonado por aquilo que faz e um charme peculiar. Há mais de 40 anos no papel, ele imprime a sensibilidade necessária na cena final que só ele seria capaz, conseguindo emocionar aqueles que acompanham a sua trajetória. É praticamente impossível imaginar uma simples substituição como acontece na franquia-irmã, 007/James Bond.

Eis que ele ganha a companhia de Phoebe Waller-Bridge (a responsável pela excelente série “Fleabag”), como a afilhada Helena, uma presença necessária para complementar as cenas de ação, alguém com dualidade de caráter que pode render bons desdobramentos se quiserem aproveitar a personagem numa outra ocasião. Ela tem talento de sobra para isso, apesar da limitação do roteiro que impede a atriz/roteirista de mostrar do que é capaz, ficando naquele limiar para não roubar o protagonismo de Ford.

Igualmente talentoso, Mads Mikkelsen (“Druk – Mais Uma Rodada”, 2020) encarna um típico arquétipo do nazista malvado com uma motivação megalomaníaca, convincente como de costume. Em Hollywood, o rosto que combina com o de um vilão parece ser o suficiente para escalá-lo. Boyd Holbrook (série “Narcos”, 2015-2016; “Logan”) vive um cara nada inteligente que se identifica com ideias do nazismo, mas fica restrito à função de capanga que só serve para atirar. O veterano Antonio Banderas é praticamente uma participação especial, pois o seu personagem poderia ser vivido por qualquer outro ator menos famoso.

Na tentativa de atiçar as lembranças do passado, alguns elementos soam deslocados, como o velho amigo Sallah (o ótimo John Rhys-Davies), que aparece mais como fan-service do que função prática na trama. O garoto atrevido que se junta ao time principal, vivido por Ethann Isidore, é um “short-round” até esforçado, mas não tem um décimo do carisma que Ke Huy Quan tinha em “Indiana Jones e o Templo da Perdição” (1984). Quando envolve o jovem e um avião, é exigida uma suspensão de descrença por parte do espectador num patamar elevado até para uma série que brinca com exageros.

A simbologia e momentos pontuais são mais eficientes do que a “despedida” como um todo neste “Indiana Jones e A Relíquia do Destino”, que diferente do personagem, deve ser pouco lembrado futuramente. Aquele “adeus” com a cavalgada ao lado do pai em direção ao sol de “Indiana Jones e a Última Cruzada” (1989) é o que ainda deve prevalecer na memória.

Nota: 6,0

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