Crítica: “O Agente Secreto e a força das memórias que o Brasil insiste em apagar

“O Agente Secreto” chega aos cinemas cheios de expectativas após ser ovacionado no Festival de Cannes e boas cotações em termômetros para o Oscar de 2026. Acontece que, quem espera um drama na linha de “Ainda Estou Aqui”, pode ter reações variadas. São obras que não poderiam ser mais diferentes. Mas são igualmente incríveis.

Não se trata de mais um filme sobre a ditadura militar, por mais que a temática sirva de pano de fundo. É um projeto, acima de tudo, sobre valorização das memórias e busca pela própria identidade num cenário inóspito. Principalmente num período “pré-Google”, o esquecimento acaba por se tornar lugar comum.

O diretor pernambucano Kléber Mendonça Filho não tem medo de abraçar a ficção para abrir o olho para figuras que o país tem relegado à existência. O protagonista Marcelo/Armando e a acolhedora e ao mesmo tempo bruta Dona Sebastiana (Tânia Maria, um espetáculo!) podem não ter existido de fato, mas representam pesquisadores, acadêmicos, professores, entre tantos outros que o sistema deixou invisíveis.

Esses são os “agentes secretos” do título, com missões até mais difíceis do que a de espiões romantizados!

Mas o povo nordestino não é vitimista. É debochado! Sabe rir da própria desgraça e, quando precisa, responde “na lata” àqueles que menosprezam, como faz a personagem de Alice Carvalho (participação curta e marcante).

E Kléber usa exatamente o tão característico humor para brincar com metalinguagem, nem que seja para contar uma lenda regional. Afinal, muitas vezes o lúdico é mais fácil de despertar a atenção do que os fatos. E como é bom ver o clássico “Tubarão”, de Steven Spielberg, sendo usado de maneira recorrente como metáfora para lutar contra o próprio medo.

Quem assistiu ao documentário “Retratos Fantasmas” sabe do valor sentimental do cineasta por aquela Recife onde cresceu, pela nostalgia dos cinemas de rua, pelas fantasias de Carnaval. Na sua nova obra, tudo é revivido de maneira exuberante, honrando cada detalhe com precisão minuciosa.

Wagner Moura entrega uma atuação cheia de nuances, encarnando alguém que precisa ser muitos em um só. Não é para se esperar momentos-chave de brilho ou explosões emocionais. É na sua discrição que transparece alguém que sempre se corrói por dentro, alguém impossibilitado de ser quem é.

Para muitos, o final pode parecer inconclusivo. Mas é de um simbolismo tão forte que só mesmo alguém com propriedade naquilo que faz, ousaria. O medo pode ser ressignificado, assim como as lembranças. E vidas podem ser salvas. Fabuloso!

Nota: 9,0

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