
A nova moda da indústria cinematográfica é fazer releituras de clássicos infantis. Depois de Chapeuzinho Vermelho ganhar o fraquíssimo “A Garota da Capa Vermelho” em 2011, a história de Branca de Neve e Os Sete Anões recebeu não uma, mas duas versões em 2012. Depois da comédia quase pastelona “Espelho, Espelho Meu”, esse “Branca de Neve e o Caçador” chega com a proposta de trazer uma história mais sombria. A boa notícia é que, salvo a pretensão exagerada dos realizadores em agradar as novas gerações, o longa metragem tem aspectos positivos e escapa de ser um fracasso.
A trama não é muito diferente da original: Branca de Neve (Kristen Stewart) é a única pessoa na Terra mais bonita do que a Rainha Má (Charlize Theron), que está decidida a destruí-la. Para isso, a madrasta tirana contrata um Caçador (Chris Hemsworth) para matá-la. Acontece que o homem acaba fazendo uma aliança com a jovem e eles acabam enfrentando uma série de desafios que os colocará em rota de guerra com o reino.
Surpreendentemente, o roteiro escrito pelo estreante Evan Daugherty, John Lee Hancock (do dramalhão “Um Sonho Possível”) e Hossein Amini (do ótimo “Drive”) consegue usar aspectos da história clássica, mas deturpando-os completamente de uma maneira criativa. No caso, a madrasta agora é explicitamente uma feiticeira com poderes místicos, os motivos dela querer matar a Branca de Neve ganha uma explicação mais plausível do que puro ciúme e a maçã enfeitiçada é utilizada em um novo contexto. E a mudança mais importante: o fato de o Caçador (um coadjuvante quase sem importância no original) é alçado ao posto de protagonista, enquanto o “príncipe” (vivido por Sam Claflin) surge como aquele que não conta com a torcida do expectador. Sendo assim, não deixa de ser interessante ver que o galã principal, na verdade, é pobre, bêbado e abalado psicologicamente por perdas do passado.
Mas o principal mérito do filme fica por conta da ótima direção de arte, conferindo uma ambientação estilosa e com ares de filme épico. Armaduras bem desenhadas, cenários grandiosos, enaltecidos com uma fotografia sempre escura no melhor estilo do seriado “Game os Thrones”, além de bons efeitos especiais nos aspectos sobrenaturais (os poderes da feiticeira, monstros gigantes, etc) tornam o filme atraente aos olhos. Nesse contexto, o diretor Rupert Sanders faz um trabalho correto, com sequencias de batalha que, mesmo sem nada de espetacular, não compromete com poluição visual ou cortes rápidos, usando também a violência na medida certa.
Mas infelizmente o roteiro, a partir da segunda metade da projeção, acaba se rendendo a fatos que só devem agradar aos adolescentes acostumados com mais do mesmo. A inclusão de um triângulo amoroso, por exemplo, soa forçado e desnecessário, provavelmente visando a geração “Crepúsculo”. O fato de a Branca de Neve ser pintada como “a escolhida” que irá salvar os súditos da tirania, no melhor estilo “Matrix”, também surge bem clichê.
Ironicamente, um dos aspectos mais legais do longa acaba se tornando um defeito pelo mal aproveitamento: os oito (sim, agora são oito) anões. Mostrados como pilantras sujos mas de bom coração, eles roubam a cena sempre que aparecem, graças ao excelente time formado por Bob Hoskins, Toby Jones, Nick Frost, Ray Winstone, Ian McShane, Eddie Marsan, Johnny Harris e Brian Gleeson. Acontece que eles estão visivelmente deslocados na trama e ganham apenas a função de alívio cômico, desperdiçando o potencial dos experientes atores.
Outro aspecto negativo reside justamente na personagem título. Desprovida de carisma, Kristen Stewart (olha eles aproveitando o sucesso da Saga Crepúsculo…) não convence o público ao passar a imagem de mulher bonita e forte, que não teme em desafiar os piores perigos. Até Lily Collins, que encarnou o papel na versão cômica “Espelho, Espelho Meu”, é mais encantadora. Chris Hemsworth, por sua vez, parece não ter saído do papel de Thor, se limitando a manter a voz grossa e a postura de machão. Mas não compromete, visto que o estereótipo combina com seu personagem. Mas o maior destaque vai para Charlize Theron, que usa com eficácia a sua beleza para dar à madrasta um ar manipulador, construindo uma vilã eficiente.
Para quem espera que “Branca de Neve e o Caçador” seja um desperdício total, pode sair da sala de cinema surpreso e contente com o que viu. Só é uma pena que uma obra com tanto potencial deixe o gosto de “poderia ser melhor”. Quem sabe se tivéssemos um filme protagonizado pela Rainha Má e os anões, mantidos os atores, teríamos uma obra muito boa.
Ps: no dia em que um espelho mágico afirmar que Kristen Stewart é mais bela do que Charlize Theron, pode jogá-lo fora, pois certamente ele está com defeito!
Nota: 6,0
Amei o seu fecho de seu texto! E pensar que ainda não havia lido o mesmo, há uns dez dias atrás, quando usei estes termos, conversando com um grupo de amigos. De fato, poderiam ter encontrado uma “Branca de Neve” mais interessante que a insípida Kristen Stewart. Já, Charlize está no apogeu da beleza e é indiscutivelmente, talentosa. Ou eles colocassem uma madrasta não tão deslumbrante, ou escalassem Meghan Fox (e nada que maquiagem não resolvesse para apagar seu bronzeado californiano), linda e com aquela aura de mulher forte que o enredo pede.
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