Crítica: ‘O Lado Bom da Vida’ é loucamente cativante

Parece regra, mas todos os anos figura entre os indicados ao Oscar aquele filme “bonitinho”, mas que todos sabem que não vai levar o prêmio principal. Seguindo os passos de “Pequena Miss Sunshine”, “Juno”, entre outros, “O Lado Bom da Vida” é um ótimo exemplar de uma comédia romântica com todos os ingredientes diferenciados para divertir, perturbar e emocionar o espectador.

Baseado no livro escrito por Matthew Quick, a história apresenta Pat Solitano Jr. (Bradley Cooper), um homem que perdeu quase tudo na vida após se descontrolar ao flagrar a esposa com outro homem. Depois de passar um tempo internado em um sanatório, ele volta a morar com os pais e acredita ser possível passar por cima de todos os problemas do passado até reconquistar a mulher que ama. Mas em seu retorno, ele acaba conhecendo Tiffany (Jennifer Lawrence), uma mulher também problemática que pode provocar mudanças em seus planos futuros.

Indicado a oito Oscars (incluindo Melhor Filme, Diretor, Ator, Atriz, Ator Coadjuvante e Roteiro Adaptado), “O Lado Bom da Vida” traz como ponto forte a carga dramática por trás dos personagens, mesmo com uma trama leve. O casal principal foge do padrão “fofinhos de Hollywood” e o modo como se completam através dos problemas e o jeito como são julgados pelos olhares dos outros são a força motriz do longa metragem. Afinal, o que define alguém ser louco, devasso, ou simplesmente diferente?

Logo de início sentimos na pele a angústia de uma pessoa que sofre de transtorno bipolar ao conhecermos Pat Solitano. Bem intencionado no objetivo de reconquistar a esposa – até mesmo correndo vestido com um saco de lixo para perder peso -, repentinamente nos deparamos com mudanças bruscas de humor, chegando a acordar os pais para reclamar da insatisfação com o teor de um livro. Mas Pat é cativante pelo jeito inocente de agir, se assemelhando a uma criança. Méritos do excelente trabalho de Bradley Cooper (“Se Beber, Não Case”), que se mostra capaz de crescer na carreira como “ator sério”.

Mas se a instabilidade de Pat chega a causar angústia, o contraponto surge na pele de Tiffany, personagem que consolida a ótima Jennifer Lawrence (“Jogos Vorazes“) como uma das melhores atrizes da nova geração. Carregando o fardo de ser viúva tão jovem e rotulada de “vadia” por muitos por causa de possíveis atitudes questionáveis, a bela moça consegue trazer leveza à trama. Com feições cativantes, expostas com dificuldade devido a agonia que leva consigo, ela desenvolve com Pat uma química perfeita ao conseguir entretê-lo, mesmo sem contatos físicos. O primoroso trabalho da dupla ao abordar a dificuldade na comunicação entre essas pessoas “diferentes” é um diferencial do longa se comparado aos demais filmes do gênero.

A produção também prima pelo excelente elenco de apoio, de modo que a atribulada família de Pat, apesar de todo o amor, contribui para a perturbação na cabeça do rapaz. O veterano Robert De Niro sai do piloto automático depois de anos e entrega uma performance carregada na pele do pai do protagonista. Viciado em apostas e sofrendo de Transtorno Obsessivo Compulsivo (apesar de não reconhecer), ele é capaz de chocar o espectador ao agredir fisicamente o filho durante um dos seus surtos e emocionar profundamente em uma cena quando faz um “pedido especial” para ele. Jacki Weaver, que vive a mãe, também convence ao se mostrar preocupada com as pessoas ao redor, mas sempre com cara de convencida (até esboçando uma falsa felicidade) pela situação irreversível.

Depois da indicação ao Oscar por “O Vencedor”, David O’Russell apresenta mais um bom trabalho atrás das câmeras, trazendo alguns toques refinados, como a inclusão ao fundo, em momentos aleatórios, da música que tanto atormenta Pat. Acertadamente, ele opta por não mostrar durante a maior parte da projeção a tão comentada esposa do protagonista, de modo a tornar sua imagem idealizada. O roteiro, escrito por ele, pode até ser previsível e cair nos clichês no ato final, mas não deixa de garantir bons momentos de diversão durante o clímax. E ainda deixa uma mensagem para reflexão: conquistar tão pouco, mas sendo fruto do próprio esforço, pode ser um começo para ser aceito pela sociedade.

“Excelsius”! Essa expressão em latim tão repetida durante o longa indica que devemos procurar sempre o lado positivo nas coisas da vida. E ela também resume o filme em si: olhando como um todo, não é marcante e nem deve entrar nas listas das pessoas como um dos filmes favoritos dos últimos tempos. Mas analisando os fatores individualmente, o resultado é mais do que agradável.

Nota: 8,5

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