
“Caçadores de Emoção” (Point Break, 1991), dirigido por Kathryn Bigelow (vencedora do Oscar por “Guerra ao Terror” em 2009), tem o seu valor entre os apreciadores dos filmes de aventura. A premissa era interessante: um policial infiltrado em uma gangue de surfistas que praticavam assaltos a bancos utilizando máscaras de ex-presidentes dos Estados Unidos para bancar a própria paixão pela adrenalina. Protagonistas em sintonia (Patrick Swayze e Keanu Reeves), cenas estilosas e até uma participação de Anthony Kiedis, do Red Hot Chili Peppers, alçaram o longa a um status de cult.
Mas nada justificava uma refilmagem! Em meio ao ócio criativo e ganancioso que cerca a indústria, “Caçadores de Emoção: Além do Limite” (Point Break, 2015) chega comprovando o único cunho de caça-níquel.
Enredo
Na trama, um jovem agente do FBI, Johnny Utah (Luke Bracey), tem como missão se infiltrar em meio a atletas de esportes radicais, suspeitos de cometerem uma série de roubos nunca vistos até então. Não demora muito para que ele se aproxime de Bodhi (Édgar Ramirez), o líder do grupo, e conquiste sua confiança.
Só muda os esporte
A premissa é exatamente a mesma do anterior, com os nomes dos protagonistas mantidos, porém, substituindo o surf por todos os esportes radicais que se possa imaginar. Há referências ao original, como uma alusão às máscaras dos ex-presidentes numa câmera de vídeo, a cena em que Johnny Utah atira para o ar enquanto está caído no chão e vê o antagonista fugir, e só. Ao invés de a gangue roubar para bancar os luxos, o roteiro de Kurt Wimmer (do também fracassado remake de “O Vingador do Futuro”, 2012) muda o desenvolvimento por oito desafios propostos por um tal de Ono Osaki que, ao serem realizados, atinge-se o nirvana. Apenas um pretexto para destilar as cenas de ação que não acrescenta em nada no resultado geral.
Não tem como negar que o remake é cheio de cenas de ação bem conduzidas que irão agradar aos fãs de esportes radicais. Usando e abusando de tomadas áreas e câmera em movimento (mas sem cortes excessivos), o inexperiente diretor Ericson Core (que tem no currículo apenas “O Invencível”, de 2006, além do telefilme “The Courier/2.0”, de 2008) até que não faz feio comandando manobras de motocross, descidas de ski em desfiladeiros íngremes, escaladas de montanhas, voos de wingsuit e por aí vai. Detalhe que o mote principal do anterior, o surf, é o único que soa falho neste, com apenas uma cena bem artificial, além do desfecho final em que só o espectador mais ingênuo para não perceber que todo o cenário de fundo é criado em computação gráfica sob a tela verde.
Ação demais e interação de menos
A questão é que nos dias atuais, com tantos longas metragens sendo lançados com uma overdose de efeitos especiais, um remake de “Caçadores de Emoção” pouco tem a oferecer. O fator novidade ficou lá no começo dos anos 90. E se o novo tem de original as belas cenas de ação envolvendo os variados esportes, ele perde a essência do anterior: a química entre os personagens. Afinal, era o ar humanizado de Bodhi que fazia o espectador não vê-lo como total vilão a ponto de conquistar a amizade de Johnny Utah, que por sua vez, é apenas um ex-jogador de futebol americano frustrado que se encanta com a chance de aprender a surfar e pular de pára-quedas.
Agora Utah é apresentado desde o início como um expert em esportes e mesmo a morte do amigo no início da projeção soa desnecessária pois, por mais que o fato tenha o influenciado a entrar para a polícia e, posteriormente, enxergar em Bodhi um novo parceiro, isso nunca parece claro em meio a tanta ação. Por mais que o longa agrade com as cenas agitadas em belos cenários, lá do meio pro fim elas se tornam um tanto repetitivas. As perseguições policiais também são eficientes, com motos, quedas em cachoeiras, desmoronamentos e saltos em teleféricos, mas ao apelar para situações absurdas no melhor estilo “Missão: Impossível”, acaba por às vezes cair no clichê.
Só um do elenco escapa
Keanu Reeves pode não ser um grande ator, mas ele tem o seu carisma e em 1991 despontava como astro de ação. Já o falecido Patrick Swayze era uma estrela em alta naquela época, vindo dos sucessos “Dirty Dancing: Ritmo Quente” (1987), “Matador de Aluguel” (1989) e “Ghost: Do Outro Lado da Vida” (1990), fazendo de Bodhi mais do que um surfista galã, mas um anti-herói. No lugar de Keanu, o australiano Luke Bracey (“November Man: Um Espião Nunca Morre”) é um protagonista canastrão, inexpressivo e sem nenhum apelo para conquistar o público. Por outro lado, o venezuelano Édgar Ramirez (“Joy: O Nome do Sucesso”) até se esforça para fazer de Bodhi um homem sereno e com os ideais de vida acima das leis, quase um guia espiritual, o problema é que o roteiro atropelado não o ajuda a se aprofundar mais no personagem.
Mas pior ainda para o elenco de coadjuvantes, que soam irrelevantes para a trama. O experiente Ray Winstone (“A Lenda de Beowulf”), que vive o policial que acompanha Johnny Utah, acaba se tornando apenas um motorista que reclama da falta de avanço na missão. Representante feminina, Teresa Palmer (“Meu Namorado é um Zumbi”) está lá apenas para servir de interesse “amoroso” (nunca parece existir algo, além de físico, entre eles) do protagonista, diferente da personagem vivida por Lori Petty no original, que é quem ensina Johnny a dar os primeiros passos no surf e é o elo para ele se infiltrar na gangue. Nomes relativamente conhecidos como Clemens Schick, Tobias Santelmann, Max Thieriot e Delroy Lindo estão apenas fazendo número em cena.
Pode passar batido
A produção pode agradar a alguns que procuram apenas diversão passageira ao longo de quase duas horas e boas cenas de ação. Mas se quiser nostalgia, a melhor opção ainda é procurar o “Caçadores de Emoção” original em DVD ou Blu-ray, já que até a seleção da “Sessão da Tarde” de hoje em dia se encontra escassa. No fim das contas, se a ideia era fazer um filme com a mesma proposta mas alterando o esporte, ele já teve um remake não assumido que rendeu uma franquia bem lucrativa: “Velozes e Furiosos”, em 2001.
Nota: 4,0