Crítica: “Bacurau” é um brilhante amontoado de influências cinematográficas e críticas sociais

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Num país que desvaloriza cada vez mais a cultura e ameaça extinguir a Agência Nacional do Cinema (Ancine), essa obra vem como um tapa na cara. Ou melhor, como uma ignorância violenta condizente com a situação atual do Brasil que só um bom nordestino como Kléber Mendonça Filho e seu tradicional contribuinte Juliano Dornelles poderiam materializar. “Bacurau” (idem, 2019) é direto em sua narrativa, porém, não deve ser absolvido com facilidade pelo grande público pois muitos não enxergam o que está diante dos olhos. Mas a ideia de um futuro distópico (que não é tão distante do nosso mundo atual) fica bem explícita.

Na trama, pouco após a morte de dona Carmelita, aos 94 anos, os moradores de um pequeno povoado localizado no sertão brasileiro, chamado Bacurau, descobrem que a comunidade não consta mais em qualquer mapa. Aos poucos, percebem algo estranho na região: enquanto drones passeiam pelos céus, visitantes chegam à cidade pela primeira vez.

A sinopse acima pouco fala sobre a obra em si, já que, quanto menos o espectador souber sobre a história, melhor será o impacto. Para isso, os trailers tiveram todo o cuidado para esconder o máximo possível do que a produção se trata, sugerindo até possíveis aparições de discos voadores. Aí onde entra o brilhantismo de Kléber e Juliano, pois, contando com o efeito surpresa a favor, envolve com a sua criativa mistura de estilos, além da crítica social.

“Bacurau” é, primordialmente, um faroeste moderno com ares dos clássicos italianos de Sérgio Leone. Mas também tem um forte tom regionalista de produções como “O Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), de Glauber Rocha, e “Corisco & Dadá” (1996), de Rosemberg Cariry. Tudo inserido num cenário de futuro pós-apocalíptico, no melhor estilo “Mad Max”, com personagens propositalmente caricatos que parecem saídos de um longa de Quentin Tarantino. Sim, uma mistureba ousada, construída de maneira admirável!

Mas para isso, os diretores tratam de apresentar em detalhes Bacurau, uma pequena cidade típica do interior de cidades nordestinas. O cenário é de casas precárias e a população carece de doações de água, alimentos, vacinas e medicamentos para viver. Porém, ali também estão tablets, celulares modernos. A ideia de futuro irreal fica clara através de telões de LED e TVs até no caminhão pipa.

O primeiro ato pode soar até prolongado e cansativo para muitos pelo fato da narrativa pouco andar, porém, é necessário para adotarmos aquelas pessoas bem familiares. Tem o repentista que tira sarro dos paulistanos, o líder comunitário, a única médica do município, as prostitutas, o mafioso que é visto como lenda pelos moradores (o “Pacote”, vivido pelo ótimo Thomás Aquino). E claro, tem o prefeito (Thardelly Lima) que só aparece em período de eleição, acompanhado de sua comitiva, tocando um jingle que gruda na mente. A cena dos livros sendo “doados” de maneira grosseira é uma clara representação de como a cultura está sendo tratada.

Mas quando acontece a “revelação”, a narrativa se transforma numa trama de valorização dos valores que construíram aquela terra, rejeitando os interesses de grandes organizações. Algo que já havia sido bem abordado por Kléber nos ótimos “O Som Ao Redor” (2013) e “Aquarius” (2016). Mas aqui a ação ganha forma, assim como a violência. Mas nunca gratuita. Parte dela até cartunesca, com direito a uma cabeça explodindo por um tiro de um personagem pelado, numa quebra de expectativa em que Tarantino ficaria orgulhoso.

O roteiro, também a cargo da dupla de diretores, trata de questões como o perigo da idealização da indústria armamentista, do preconceito com o povo brasileiro, tanto vindo dos gringos como do povo do Sul-Sudeste para com o restante dos seus conterrâneos. Porém, tudo é trabalhado de maneira dinâmica, cheia de simbolismos e até ironia. Nunca cai nos discursos autoexplicativos ou moralistas.

O incômodo natural é jogado na tela, seja através da morte de uma criança inocente brincando ou através de pequenos códigos de narrativa, como os caixões na estrada logo na sequência de abertura ou as roupas cheias de sangue penduradas no varal (algo que era feito no sertão nordestino anos atrás apontando vingança), sinalizando o que viria a acontecer. Vale ressaltar: tudo com muito humor negro, que em alguns momentos se transforma em satisfação pelo o que se vê em cena.

O elenco pouco conhecido acaba sendo um fator favorável, inclusive contando com vários amadores em cena se dedicando para entregar o melhor. A veterana Sônia Braga (que entrega a loucura necessária para manter a vida) e o alemão Udo Kier (num tom de superioridade perturbador) garantem peso ao longa. Mas a inocência de Teresa, vivida por Bárbara Colen, e principalmente o exótico herói refugiado Lunga, vivido pelo cearense (e assumidamente homossexual) Silvero Pereira, conferem uma personalidade única exprime que a diversidade tem força.

A trilha sonora complementa cada plano em cena, desde a abertura, com Gal Costa cantando Caetano Veloso, na bela “Não Identificado”, mostrando o universo infinito no melhor estilo “Star Wars” (inclusive os diretores fazem algumas transições no estilo “power point”, que George Lucas imprimiu como característica da saga). A presença de Geraldo Vandré, preso durante a ditadura, com a contundente “Réquiem para Matraga”, com certeza não foi aleatório. E para carimbar a diversidade de gêneros em cena, a eletrônica “Night”, de John Carpenter (sim, este filme também tem muito de “Fuga de Nova York”, 1981) nos créditos finais, vem como uma facada.

Um nó na garganta, tensão do começo ao fim, caricaturas numa visão de futuro que, infelizmente, não parece tão utópica. Um certo personagem fala no final que “está apenas começando”. Mas obras como “Bacurau” mostram que não só a cultura é indústria como a resistência é forte!

Nota: 9,5