Crítica: “Yesterday” se apoia no legado dos Beatles e entrega uma produção apenas regular

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O que seria de um mundo em que apenas uma pessoa conhecesse as músicas dos Beatles? Junte isso a uma direção de ninguém menos que Danny Boyle (de “Trainspotting”, 1996, “Quero Ser Um Milionário”, 2008) e um roteiro de Richard Curtis (“Um Lugar Chamado Notting Hill”, 1999, “Simplesmente Amor”, 2003). Uma fórmula perfeita? Talvez. Funciona? Em partes! Por mais que tente de fugir do tradicional, o resultado é uma produção que sempre cai no lugar comum e tem como maior mérito a apreciação das músicas de uma das melhores (se não a melhor!) banda de todos os tempos.

A trama é bem simples: após sofrer um acidente, o cantor-compositor frustrado Jack Malick (Himesh Patel) acorda numa espécie de realidade paralela onde ninguém, além dele próprio, conhece as músicas dos Beatles. Com as canções de seus ídolos, o tímido rapaz se torna um sucesso, o que acaba por trazer vários problemas para a sua vida pessoal.

A premissa é muito interessante e naturalmente atrai a atenção dos milhões de fãs da banda inglesa. Nesse processo de descoberta de tal “fenômeno”, o roteiro de Curtis rende diversas piadas que garantem uns risos, sendo as mais simplistas as buscas no Google. Mas vai além ao deixar claro que outros ícones da cultura pop também sumiram, como Oasis, Coca-Cola (rendendo ótimas gags com o trocadilho com o nome e a tomada de primeiro lugar pela Pepsi) e até cigarro! Ainda que boa parte desses cenas tenham sido exibidas nos trailers, elas funcionam.

Mas o foco, obviamente, não são esses exemplos, mas sim, The Beatles. O longa é uma carta de amor ao quarteto que dispensa apresentações e adjetivos positivos, com criativas inserções, algumas mais singelas como referências em diálogos aleatórios a “The Long and Winding Road” e “When I’m 64”, a detalhes dos possíveis figurinos elaborados para Jack, até homenagem explícitas como a população correndo atrás dos ídolos (do filme “A Hard Day’s Night”, 1964) e as brincadeiras com as capas dos discos “The White Album” e “Abbey Road”.

Existe ali o cuidado para não cair no oportunismo barato do protagonista, já que ele não dispõe de letras ou cifras para se basear e executar. Necessitando resgatar da memória, Danny Boyle inclui divertidos flashbacks em sua tentativa de relembrar a letra de “Eleanor Rigby” e saídas “fáceis” como anotações em post-its. Por mais que não seja surpresa, no tour por Liverpool para refrescar a mente, não deixa de ser emocionante ao conferir ali “Strawberry Fields”, “Penny Lane”, entre tantas outras referências. Quem se identifica com o grupo e ama viajar, instiga a economizar só para ver tais destinos.

O lado mais criativo recai no impacto de tal acontecimento no mundo atual. Será que as canções dos “Besouros” teriam o mesmo efeito se tivessem surgido atualmente? A qualidade está lá e ninguém questiona, tanto que Jack é catapultado à fama. Porém, demora para emplacar, já que não basta conhecer a letra e as melodias, é preciso ter o carisma e a estratégia de penetração para a sua respectiva época. E quando enfim ele cai no gosto do público, ainda há fortes intervenções pela indústria para adaptações. “Hey Dude”, por exemplo, teria sido melhor aproveitado se não tivesse na prévia.

Porém, a maneira como a narrativa é conduzida é a mais confortável possível, ainda que Danny Boyle use letreiros gigantes para marcar a passagem de tempo como um filme dos anos 60, utilize de alguns planos invertidos e faça um empolgante travelling na execução de “Help” – o momento em que melhor simboliza o estado de espírito do personagem principal. Porém, ele se rende aos clichês de comédias românticas que assistimos há tantos anos.

Tem a história do casal que há anos desfruta de uma amizade que nunca evoluiu para algo maior. Mas o romance entre o desajeitado músico e sua carismática agente Ellie (a ótima Lily James, de “Baby Driver”, 2017) não convence. Eles não têm química alguma e a narrativa trata de amarrar toda a trama dos desencontros da dupla ao redor da farsa promovida pelo protagonista. Tem uma sequência num terminal que finta uma quebra de expectativas, mas sempre permite o espectador a esperar por um final feliz.

Lidamos com idas e vindas da dupla e o roteiro de Richard Curtis até tenta apelar para o lado emocional na transição do segundo para o terceiro ato, resgatando a memória de um ídolo da vida real. Tem um bom efeito dramático ali, mas o uso de piadas tira em partes o valor daquela surpresa. E para terminar, temos um show para agradar a gregos e troianos. Tudo isso para colocar um ponto final com uma conclusão diplomática e politicamente correta.

Desconhecido do grande público, o britânico descendente de indianos e africanos, Himesh Patel, faz um bom trabalho ao transmitir a insegurança de quem nunca foi aceito pelo seu jeito introvertido. Quando está sob os holofotes, mostra um bom talento cômico por se mostrar desconcertado naquele contexto. E ele canta bem! É possível curtir as canções cantadas por ele, com as devidas mudanças por causa da situação criada pelo roteiro, já que ele não dispõe de material de referencial.

Se Lily James fica limitada ao papel da mocinha simpática ali estipulado e a ótima Kate McKinnon soa exagerada e estereotipada, cabe ao músico Ed Sheeran se divertir interpretando ele mesmo. E ele não se sai mal. Satiriza a própria imagem de egocêntrico e torna difícil para quem assiste vê-lo como antagonista, mesmo fazendo um desafio para comprovar quem é o melhor compositor ou botando “The Shape of You” como toque do próprio celular.

“Yesterday” faz um caminho seguro para agradar ao grande público, traz conclusões bonitinhas que dificilmente dão errado. Tem aquela “good vibes” enquanto se assiste, mas memória do longa não deve perdurar por muito tempo após a sessão. As lembranças são as canções. Afinal, elas sim são eternas.

Nota: 6,0